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Um DOGE para o Brasil.

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Ontem, 2 de outubro, a dois dias da eleição no Brasil, a Fox News trouxe uma longa matéria sobre o DOGE — Department of Government Efficiency, ou Departamento de Eficiência Governamental. Ao acompanhar os relatos, fiquei pensando: por que não fazemos algo parecido por aqui?

A ideia é simples de entender: revisar os gastos públicos, modernizar a administração e exigir que o Estado explique o que faz com o dinheiro do contribuinte. 

O DOGE nasceu da aproximação entre Donald Trump e Elon Musk durante a campanha presidencial americana de 2024. Musk apresentou uma ambição extraordinária: cortar até 2 trilhões de dólares em gastos públicos.

Você pode questionar essa meta, os métodos empregados e os resultados anunciados. Há razões para isso, como veremos. Mas a pergunta que motivou a iniciativa merece ser feita no Brasil: por que continuamos pagando por despesas cuja necessidade ninguém parece disposto a examinar?

Veja o tamanho do nosso problema. A dívida bruta brasileira chegou a aproximadamente R$11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB. Em 12 meses, a conta de juros alcançou R$1,18 trilhão. E a Selic, mesmo depois das reduções, está em 13,75% ao ano. No levantamento de setembro que compara 40 economias, o Brasil aparece com a quarta maior taxa nominal e a maior taxa de juros reais.

É nesse cenário que vamos escolher quem governará o país. Você não acha que a qualidade do gasto público deveria estar no centro da conversa?

Defendo que o Brasil tenha um instrumento permanente de revisão, na União, nos estados e nos municípios. Um trabalho que examine contratos, programas, subsídios, estruturas e procedimentos, identifique desperdícios e melhore os serviços. 

Por que há despesas que continuam sendo pagas depois de perderem sua razão de existir? 

Nos Estados Unidos, Trump deu forma institucional ao DOGE em 20 de janeiro de 2025, dia da posse. Reorganizou o antigo serviço digital do governo e criou uma organização temporária, prevista para funcionar até 4 de julho de 2026. Também determinou a formação de equipes nos órgãos federais para modernizar a tecnologia e aumentar a eficiência administrativa.

Na matéria da Fox, um dos relatos é o de Tyler Hassen, que participou da iniciativa no Departamento do Interior e escreveu o livro Inside DOGE. Ele conta que cada unidade do governo precisou justificar com argumentos irrefutáveis as suas despesas.

Segundo Hassen, aproximadamente 10 mil contratos e 26 mil concessões de recursos foram reunidos para revisão. 

Parece uma exigência elementar, concorda? Mas quantas vezes você viu um programa público ser obrigado a demonstrar, com clareza, por que deve continuar existindo?

Hassen contesta a crítica de que sua equipe tenha feito apenas cortes indiscriminados. Afirma que os servidores responsáveis pelos programas foram consultados para identificar o que fazia sentido manter e relata ter encontrado profissionais competentes e comprometidos, limitados por tecnologia ultrapassada e estruturas ineficientes.

Esse ponto me interessa especialmente. 

O servidor conhece o caminho do processo, sabe onde ele emperra e muitas vezes tem uma solução. Falta espaço para agir, autorização para mudar e respaldo para enfrentar resistências.

Scott Kupor, diretor do Escritório de Gestão de Pessoal dos Estados Unidos também está presente na matéria da FOX. Ele descreve os procedimentos para a concessão de aposentadorias federais: durante décadas, documentos circularam fisicamente até chegar a um centro de processamento instalado em uma antiga mina de calcário, em Boyers, Pensilvânia.

O local abrigava mais de 400 milhões de registros em papel e processava manualmente cerca de 10 mil aposentadorias por mês. Kupor atribui o avanço da digitalização a uma decisão reveladora: permitir que os profissionais resolvessem problemas que já conheciam.

Agora pense no que enfrentamos por aqui. Quantas exigências sobrevivem por hábito? Quantos sistemas públicos deixam de conversar entre si? Quantas vezes você precisou entregar ao governo uma informação que o próprio governo já possuía?

Também é disso que estamos falando quando defendemos eficiência: menos etapas, menos documentos circulando e mais rapidez para atender o cidadão.

Musk deixou formalmente o governo no fim de maio de 2025. Em novembro daquele ano, Kupor declarou à Reuters que o DOGE já não funcionava como uma entidade centralizada, porque parte de suas atribuições havia sido absorvida por outros órgãos. Ou seja, o modelo foi multiplicado. 

Eu defendo uma rotina permanente de revisão, com equipes técnicas, participação dos servidores, metas públicas e resultados verificáveis. O exame deveria alcançar contratos, compras, imóveis, estruturas sobrepostas, subsídios e benefícios tributários. Cada programa teria de responder a três perguntas: a quem atende? quanto custa? e o que entrega?

Agora chegamos à parte mais difícil: quem está disposto a fazer isso?

Não vejo hoje disposição política suficiente, seja em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, seja na permanência de Lula. Minha dúvida é sobre a vontade e a capacidade de enfrentar os interesses que sustentam o gasto público.

Jair Bolsonaro prometeu reduzir e transformar o Estado. Ele encaminhou ao Congresso, em 2020, a PEC 32, uma proposta de reforma administrativa. Houve uma tentativa, mas, na minha avaliação, ela apenas arranhou a possibilidade de uma transformação mais profunda.

Lula também apresentou medidas de contenção de despesas, com um pacote aprovado pelo Congresso em dezembro de 2024. É preciso reconhecer isso. Minha crítica está na insuficiência dessa agenda: ajustes pontuais não substituem uma revisão contínua do funcionamento do Estado.

Você sabe como essa resistência funciona. Cada despesa tem seus defensores, seus beneficiários e alguém disposto a pressionar pela sua manutenção. Já o contribuinte que paga a conta está disperso, ocupado em trabalhar e cumprir suas obrigações.

O governante enfrenta a pressão assim que anuncia a mudança. Os benefícios podem demorar. E, muitas vezes, a resistência vem dos próprios aliados.

É aí que a coragem precisa aparecer.

Desperdício é dinheiro que poderia chegar à escola, ao hospital, à segurança e à infraestrutura. É também exigir da sociedade mais do que seria necessário para prestar um serviço adequado.

Defendo que o Brasil aproveite a experiência do DOGE, aprenda com seus acertos e falhas e construa seu próprio instrumento de revisão e modernização. Com transparência, continuidade e respeito às nossas instituições.

A necessidade está diante de nós. Quem terá coragem de agir?

Quem pede ao brasileiro mais impostos deve estar disposto a explicar, antes, o que fez com o dinheiro que já recebeu. 

E não posso perder a oportunidade para sugerir que você leia o que eu escrevi sobre o Estado Brasileiro no meu site, jacksonvasconcelos.com . A título de estímulo, deixo aqui o acesso ao artigo que escrevi, com ironia, sobre a CEAGESP, um exemplo da resistência dos agentes do Estado para qualquer projeto ou ação que lhe diminua o tamanho: https://jacksonvasconcelos.com/um-ninho-de-ratos/ 

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