Sentindo-me um exilado em minha própria terra, em razão da enorme transformação que se fez e ainda se faz por aqui, reencontrei O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig (1881–1942).
Em 1941, Zweig estabeleceu-se com sua segunda esposa, Lotte Altmann, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Veio como exilado e, profundamente impressionado com o país, escreveu Brasil, País do Futuro, publicado em 1941.
Antes de vir para o Brasil, Zweig testemunhou pessoalmente como, em sua terra, uma sociedade culturalmente sofisticada permitiu que o Estado deixasse de proteger o indivíduo e passasse a persegui-lo.
Para ele, liberdade, tolerância e limites ao poder político não eram abstrações filosóficas. Eram questões existenciais.
O Mundo de Ontem descreve a juventude de Zweig em Viena, no final do século XIX, vivida sob uma sensação de estabilidade, sustentada pela confiança nas instituições, no progresso científico, na educação e na cultura.
Para sua geração, parecia que a civilização europeia avançaria continuamente. Esse é o “mundo de ontem” do título.
Por isso, uma das grandes questões do livro é: o que acontece com uma pessoa quando o Estado ao qual ela pertencia deixa de reconhecê-la como parte da comunidade?
Zweig cresceu acreditando que a liberdade, a tolerância, a circulação de pessoas, a cultura e a racionalidade política eram conquistas irreversíveis. Não eram. Civilizações que parecem sólidas podem desaparecer rapidamente.
Talvez essa seja a lição mais contemporânea do livro: a democracia e a liberdade não são estados permanentes de uma sociedade. São construções que precisam ser continuamente preservadas.
O livro é o testemunho de alguém que viu desaparecer a Europa liberal e cosmopolita de sua juventude sob duas guerras mundiais, nacionalismos, antissemitismo e totalitarismos.
Em 22 de fevereiro de 1942, Stefan Zweig e Lotte foram encontrados mortos em casa, em Petrópolis. Cometeram suicídio. Na mensagem de despedida, Zweig agradeceu ao Brasil pela hospitalidade e explicou seu profundo esgotamento diante da destruição do mundo europeu ao qual pertencera.
Que maravilha são os versos que compõem Jeremias, drama de Stefan Zweig escrito durante a Primeira Guerra Mundial e publicado em 1917.
A passagem está no nono e último quadro da peça, quando Jerusalém foi derrotada e o povo judeu parte para o exílio após a conquista babilônica.
“(…) Seguiremos por caminhos estrangeiros,
o vento nos empurrará de país em país,
os povos nos arrancarão pátria após pátria,
sem deixar que nossas sandálias adiram à terra.
Nosso tronco derrubado já não criará raízes.
Nosso destino é errar ao sabor do mundo errante;
mas sejamos felizes, nós, vencidos universais,
lançados à grande estrada como a palha do refugo,
sem apego a lugar algum e em lugar algum bem-vindos;
em cortejo eterno atravessamos as eras
rumo à Jerusalém das almas.”
Ler é sempre o melhor caminho para a gente descobrir se é forasteiro ou nativo no Brasil.


