Numa de suas campanhas eleitorais, César Maia, submetido a um calor de 40 graus, vestido com um casaco Lacoste, entrou num açougue e pediu um sorvete. — Aqui não tem sorvete não, doutor César Maia. Aqui é um açougue — respondeu, constrangido, o açougueiro.
César Maia não agiu por desinformação nem por idiotice. Quis ocupar espaço na imprensa — e conseguiu. Para criar factoides, César Maia é mais formidável que Eduardo Paes, seu aluno mal aplicado. Outro dia, César apareceu num banheiro de casa, numa posição que, para qualquer outro cidadão, seria constrangedora. Fez para chamar a atenção.
A repercussão do pedido de um sorvete num açougue chegou a estimular, quase dez anos depois, um artigo do escritor Ruy Castro na Folha de São Paulo: “Sorvete no Açougue”, na edição de 6 de janeiro de 2010.
Em 2022, milhares de brasileiros foram bater às portas dos quartéis para pedir uma “decisão” que jamais esteve — nem poderia estar — nas mãos dos militares. Deveriam ter ido ao Congresso Nacional, atrás daqueles em quem votaram.
Bateram na porta errada e, sem perceber, deram suporte ao desejo de meia dúzia de aloprados — pois loucos desse tipo existem à esquerda, à direita e, é verdade, em menor número, no centro. O resultado foi o óbvio: frustração, delírio coletivo e cadeia.
Hoje, o teatro se repete, apenas com figurino novo.
Neste momento, tem gente a caminhar a pé de Minas a Brasília — não por direitos, não por políticas públicas, não por reformas estruturais —, mas para exigir que o Supremo Tribunal Federal solte Jair Bolsonaro e, se possível, os demais chamados presos políticos. Um espetáculo patético de auto exposição, movido menos por convicção jurídica e mais por likes, aplausos e pela reafirmação de fidelidade a um eleitorado radicalizado.
Lembrei-me da história do golpe de 64, quando o general Olímpio Mourão Filho fez o mesmo caminho, acompanhado por soldados e tanques. Naquele tempo, o Exército ainda caia em esparrelas.
Essa turma que caminha para Brasília pode dar duas voltas completas no planeta sem conseguir sensibilizar o autor das prisões. Bastaria que caminhassem até os gabinetes dos senadores — inclusive de um deles, está no grupo sendo empurrado numa cadeira de rodas! Uma imagem que representa bem o Senado Federal de agora.
O poder constitucional capaz de processar, julgar e enquadrar ministros do Supremo – e até presidentes da República — é o Congresso Nacional. É o que diz a Constituição. E ponto final.
Mas aí está o ponto mais forte do meu argumento: os que vociferam contra ministros do STF batem na porta errada. Essa turma gasta pouca ou nenhuma energia para encerrar as carreiras de senadores inúteis. Ao contrário, chega a citar um ou dois deles em defesa de sua tese estúpida.
Atacar o Supremo virou atalho retórico. Um bode expiatório conveniente para esconder a própria incapacidade — ou falta de vontade — de enfrentar o sistema político onde o poder realmente opera. É mais confortável, mas não inteligente, gritar contra a toga do que contra quem disputa o voto.
E a verdade é esta: batem na porta errada para o aplauso fácil.
Como no caso de César Maia, o problema não é o pedido em si — é o lugar.


