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SAIAS-JUSTAS.

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A sabatina de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional, realizada ontem, 28 de agosto, trouxe à cena um tipo de confronto que costuma causar desconforto à TV Globo e confirma que os candidatos aprenderam que as sabatinas não são entrevistas, nem mesmo sabatinas, só debates entre eles e os jornalistas. 

Ao olhar da estratégia esse entendimento faz toda a diferença a favor dos candidatos. 

Renata Vasconcellos e César Tralli cobraram explicações sobre os R$61 milhões repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, Flávio foi pressionado a apresentar contratos e esclarecer a relação dele com o empresário.

Ele afirmou que se tratava de patrocínio cultural privado, sem o uso de dinheiro público ou incentivos da Lei Rouanet. Disse ainda que sua participação se limitava à autorização do uso de sua imagem e à captação de investidores, cabendo à produtora responder pelos contratos e pela prestação de contas. 

Os entrevistadores insistiram na crítica. Flávio Bolsonaro devolveu o questionamento à Globo: Daniel Vorcaro e o Banco Master mantiveram relações comerciais com empresas e atrações do Grupo Globo, incluindo iniciativas ligadas a Luciano Huck e eventos do Valor Econômico

Se receber recursos privados de uma instituição financeira era apresentado como um caso suspeito no caso do filme, por que relações semelhantes seriam consideradas normais quando envolvessem a emissora?

César Tralli respondeu irritado, que os contratos publicitários do Grupo Globo obedecem a critérios de mercado, legalidade e transparência institucional. 

Em uma entrevista ao vivo, entretanto, a força de um contra-ataque não depende apenas da equivalência jurídica. Depende também da percepção pública. E, nesse aspecto, a Globo voltou a ser colocada em uma posição incômoda.

Não foi a primeira vez.

Em 18 de setembro de 2014, durante uma sabatina do RJTV, Anthony Garotinho foi questionado por Mariana Gross sobre processos e acusações que enfrentava. Em vez de permanecer na defensiva, citou acusações de sonegação envolvendo a Globo e argumentou que responder a um processo não significava ser definitivamente culpado.“A Globo pode estar sendo vítima de uma injustiça”, ele ironizou.

Mariana Gross respondeu que a emissora nada havia sonegado e pagava seus impostos. Garotinho não parou aí e lembrou que a Globo apoiou o regime militar e posteriormente reconheceu esse apoio como um erro.

O episódio foi constrangedor, mas não teve a força simbólica do confronto entre Jair Bolsonaro e Míriam Leitão, no dia 3 de agosto de 2018.

Na sabatina, Bolsonaro era pressionado por suas declarações favoráveis ao regime militar. Em vez de negar suas posições, ele recorreu à história da emissora e citou um editorial de Roberto Marinho em defesa do golpe e colocou uma pergunta devastadora para aquele ambiente: se apoiar o regime militar desqualificava Bolsonaro como democrata, como a Globo classificava o seu próprio fundador?

A bancada de entrevistadores foi surpreendida. A cena produziu um contraste difícil de apagar: de um lado, o candidato citava um documento histórico da própria organização; do outro, a jornalista precisava ouvir orientações pelo ponto eletrônico e transmitir, pausadamente, a resposta formulada pela direção da emissora. 

A cena produziu um contraste difícil de apagar. Não se tratava apenas de decidir quem tinha razão sobre 1964. A Globo já havia feito sua autocrítica, enquanto Bolsonaro continuava defendendo aquele período. O ponto central estava na imagem transmitida ao público.

Bolsonaro parecia ter antecipado a pergunta e preparado o contra-ataque. A emissora foi surpreendida pela própria história.

A partir daquele episódio, Míriam Leitão deixou de ser vista apenas como uma jornalista crítica e passou a representar o poder editorial da Globo e suas contradições. A imagem dela foi desgastada e assim permanece até hoje. 

A comunicação política não é construída apenas pelas intenções dos envolvidos. É construída, principalmente, pela imagem que permanece.

Os casos de Garotinho, Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro revelam um problema recorrente nas sabatinas da Globo. 

A emissora exerce legitimamente o direito de confrontar candidatos, investigar contradições e exigir transparência. Mas, quando o entrevistado apresenta fatos ou acusações envolvendo a própria organização e, desse modo, transforma os entrevistadores em agentes do interesse da emissora, a imagem dos jornalistas e da emissora perdem qualidade. 

É nessa mudança de papéis que nascem as grandes saias-justas.

O episódio de ontem mostra que a estratégia continua viva. Quando pressionados, políticos bem preparados procuram deslocar o foco para as contradições de quem pergunta. 

Nem sempre os casos são equivalentes. Nem sempre o contra-ataque responde à questão original. Mas, diante das câmeras, uma pergunta desconfortável pode causar tanto impacto quanto uma resposta.

Garotinho criou constrangimento. Flávio Bolsonaro explorou uma possível contradição comercial. Jair Bolsonaro, porém, fez algo politicamente mais poderoso: colocou a história da Globo sentada à mesa da entrevista.

E foi Míriam Leitão quem, diante das câmeras, teve de responder por ela.

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