A atriz Gabriela Duarte comentou a entrevista que ela e Regina Duarte concederam ao caderno de cultura da Folha de S.Paulo:
“Tive que gravar esse vídeo porque eu não queria que ele fosse uma resposta a um jornalista ou algo de comunicação. Não é sobre isso, mas vocês já vão entender.
Depois de mais de 20 anos sem atuarmos juntas, eu e minha mãe estamos voltando aos palcos. E é, sim, um reencontro artístico, profissional e pessoal. Às vésperas de ela completar 80 anos de vida, após mais de seis décadas de carreira, nós aceitamos dar nossa primeira grande entrevista juntas sobre esse momento para a capa do caderno de cultura de um dos maiores jornais do país.
Claro que nós sabíamos que outras questões poderiam surgir. Um jornalista pode e deve fazer perguntas difíceis, ainda que a abordagem tenha sido bastante deselegante, nesse caso. Mas tem uma diferença entre perguntar e insistir até provocar uma reação.
Quando o desconforto se torna mais importante que a resposta e a busca parece ser por uma frase, um corte, uma manchete, aí eu acho que vale a pena perguntar: o que está acontecendo com o jornalismo, com a comunicação?
Nos últimos dias, claro, trechos da entrevista viralizaram e o que deveria ser uma conversa sobre cultura, teatro, trajetória e esse reencontro de duas atrizes acabou tendo o constrangimento como protagonista.
O jornalismo pode incomodar, contradizer, questionar, mas ele também precisa ouvir e respeitar, inclusive quando a resposta não entrega a manchete que ele queria, a manchete esperada. Quando o entrevistado entra preparado para se defender, como aconteceu comigo, e não para conversar, alguma coisa já se perdeu.
Talvez o jornalismo esteja vivendo justamente isso, um paradoxo. Na tentativa de sobreviver, ele pode estar destruindo justamente aquilo que o mantém vivo: a confiança.
Insistir em política partidária no caderno de cultura, quando a pauta deveria ser o teatro, a arte, a trajetória, esse reencontro, também merece reflexão. Se o clique vale mais que o contexto, se a repercussão vale mais que a escuta e o conflito mais que a história, aí a gente está diante de um problema muito maior do que uma simples entrevista.
E eu acabo tendo que agradecer a todos vocês que engajaram e até chamaram isso tudo de novelinha da vida real, carinhosamente. Mas já não me resta mais nenhuma dúvida de que, no final das contas, tudo que eu e a minha mãe fazemos é um sucesso e a nossa nova peça vai seguir esse caminho.
Agora é importante lembrar: a imprensa não precisa ser protegida das críticas, mas sim do sensacionalismo.
O jornalismo deve ser louvado pelos bons profissionais, aqueles que sabem perguntar, ouvir e respeitar. Não por quem transforma constrangimento em espetáculo e a audiência em medida de qualidade. Que vocês tenham um ótimo domingo e eu espero todos vocês lá no teatro para celebrar comigo e com a minha mãe essa trajetória tão bonita que é a vida dela.”
Eu assisti à entrevista e entendi que o jornalista fez o que o público dele – o seu verdadeiro patrão – esperava que ele fizesse.
É bom lembrar que faz algum tempo — um bom e longo tempo — que Regina Duarte deixou de ser apenas uma grande atriz brasileira. No meu entendimento e para o meu gosto, uma das maiores. Contudo, ela tem personalidade política e assume as posições que tem e nisso contraria a filha e, ao que se sabe e se vê, também grande parte dos colegas.
Nas eleições presidenciais de 2002, Regina Duarte participou ativamente da propaganda eleitoral do candidato José Serra (PSDB), adversário de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como atriz principal da campanha “Eu tenho medo”, referindo-se a Lula e ao PT. A campanha de Lula respondeu com o tema: “A esperança venceu o medo”.
Na campanha de Jair Bolsonaro, Regina Duarte assumiu a defesa do candidato contra o PT e participou do governo. Ela, portanto, incorporou a política à biografia. Seria pouco realista imaginar que o assunto não aparecesse na entrevista de divulgação da peça, quando todo mundo sabe que, nesse campo, ela e a filha divergem ao ponto da impaciência.
Gabriela Duarte não gostou de tratar do tema. Pudera!
Mas olhemos o fato por outro ângulo: o da publicidade.
Uma entrevista publicada num caderno de cultura já não disputa atenção apenas com outras entrevistas ou outros jornais. Disputa com Instagram, TikTok, YouTube, WhatsApp, podcasts, influenciadores e milhões de estímulos que chegam às telas durante todo o dia.
Nesse ambiente, a resposta ponderada perdeu valor de mercado. O conflito ganhou. Uma boa frase circula. Um constrangimento circula ainda mais. Uma discussão política, então, tem combustível próprio.
E é justamente aí que aparece a grande ironia dessa história.
Gabriela Duarte critica a transformação do constrangimento em espetáculo e da audiência em medida de qualidade. Mas a repercussão da entrevista fez exatamente aquilo que qualquer estratégia de divulgação de uma peça gostaria de conseguir: chamou atenção.
A entrevista produziu a controvérsia. A controvérsia produziu cortes e comentários. E a reação de Gabriela Duarte criou uma nova rodada de notícias e compartilhamentos.
Gabriela Duarte soube aproveitar o momento, já que, no final do vídeo, transformou a crítica em divulgação: lembrou que ela e a mãe estão voltando ao teatro e convidou o público para assistir à peça.
A indignação virou conteúdo, que gerou distribuição e que, por sua vez, se fez publicidade.
Há uma velha tentação de imaginar comunicação como aquilo que gostaríamos de dizer. Não é. Comunicação é aquilo que conseguimos fazer chegar às pessoas — e, principalmente, aquilo que conseguimos fazer com que elas percebam, comentem e guardem na memória – eis o poder da publicidade.
O jornalista conseguiu a entrevista que interessava ao público e Gabriela Duarte, ao reagir, obteve a repercussão que dificilmente uma entrevista convencional sobre teatro conseguiria.
No final, a comunicação e a publicidade conversaram e as duas atrizes contaram com um excelente coadjuvante, o jornalista.


