O dia mais feliz para os meus pais foi quando ingressei no Banco do Brasil. Pra mim, um dia qualquer. Isso em abril de 1975.
Comecei uma carreira e, por conta dela, meti-me de corpo inteiro no Estado brasileiro, para exercer funções diversas no próprio banco e em algumas estruturas dos ministérios. Suportei isso até abril de 1999, quando sai do Banco do Brasil antes de completar o tempo necessário para uma aposentadoria privilegiada. Sai com arranhões.
Poucos personagens representam o Estado Brasileiro melhor que o cão Cérbero, filho de Tifão e Equidna, duas das criaturas aterrorizantes da Antiguidade. Cérbero é o guardião dos portões do inferno. Ele tem 3 cabeças, serpentes espalhadas pelo corpo, uma cauda de dragão e uma missão específica: impedir que alguém escape do Hades.
Cérbero não impede a entrada. A função dele é impedir a saída, sem que se morra novamente.
Entrar no Estado Brasileiro é fácil. Cargos, estabilidade, influência, prestígio, orçamento, privilégios e a possibilidade de fazer política exercem um fascínio irresistível.
Cérbero recebe a todos com festa, abanando o rabo. Mas, ao tentar sair, todos descobrem a fera encarnada no cão, pois o sistema reage com investigações seletivas, isolamento político, campanhas de difamação, processos administrativos, perseguições e destruição de reputações.
Sair tem um custo, o maior deles é ser comparado com os ladrões.
Essa é a maior perversidade das grandes burocracias, estimulada pela gula dos ladrões, que fazem com que o Estado deixe de servir ao cidadão para trabalhar exclusivamente para seus agentes.
A imagem das três cabeças de Cérbero simboliza a burocracia que dificulta, a política que negocia e as corporações que defendem seus próprios interesses em detrimento dos desejos da sociedade. Posso também vê-las como os três Poderes da República — essa desgraçada República presidencialista brasileira.
Apenas três personagens mitológicos conseguiram superar Cérbero.
Hércules o venceu pela força extraordinária; Orfeu, pela inteligência e arte e Psiquê utilizou estratégia e a paciência, pois os monstros raramente são derrotados pela improvisação, como essa a que a gente assiste neste ano eleitoral e tem visto desde a eleição de 2018.
Para vencer o Estado é preciso, portanto, coragem, inteligência e persistência, qualidades presentes apenas nos líderes. Então, o desafio do povo brasileiro é encontrar novos líderes, uma tarefa que os partidos políticos buscam, por todos os meios, impedir.
O ex-senador Marco Maciel, esse sim um líder liberal, contou no livro “Ideias Liberais e Realidade Brasileira”: “Numa de suas visitas ao Brasil, o conhecido cientista político, professor Maurice Duverger, declarou não duvidar do grande futuro do nosso país, mas lembrava – e aqui cito suas próprias palavras – que o Brasil só será uma grande democracia no dia em que tiver um forte e estável sistema partidário”.
Nada mais certo. Mas, como fazer isso? Você sabe?


