O audiolivro disponível no Spotfy, “Quando Deus Era Mulher”, de Merlin Stone, me acompanhou durante dias, no trânsito e nas horas vagas.
Publicado originalmente em 1976, pela historiadora e escultora Merlin Stone, o livro é uma pesquisa sobre o Sagrado Feminino; um esforço para resgatar a história silenciada das civilizações antigas que veneravam divindades femininas antes da ascensão das religiões patriarcais.
Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Agência Óbvias, assina a introdução do audiolivro, com uma construção magnífica que eu reproduzo com o desejo de compartilhar com quem visita o meu linkedin.
“Como seria ser mulher hoje se mulheres ainda fossem vistas como potências, com admiração e respeito? Com certeza, não haveria a atual concepção de mulher ideal, muito menos a violenta pressão que nós, mulheres, sofremos.nbsp;
Como ratinhos de laboratório se movendo em uma roda, sem chegar a lugar algum, convivemos com a sensação constante de que não vamos dar conta, resultante de exigências que parecem mínimas, mas que são contradições ambulantes.nbsp;
Cuide da sua aparência, mas não seja fútil. Seja bem-sucedida, mas não ambiciosa. Seja mãe, mas não só isso. E trate de correr atrás do seu corpo pré-gestação. Tenha uma carreira de sucesso, mas não se esqueça do seu companheiro. Ame seu corpo exatamente como ele é, mas não ouse sentir-se segura de si, afinal, a sociedade ama uma mulher insegura.nbsp;
O ápice dessa feminilidade moderna insiste que devemos nos colocar em segundo plano. Somos ensinadas desde novas que nossas chances de sermos amadas aumentam na mesma proporção do quanto estamos dispostas a servir sem reclamar e permanecer assim.nbsp;
O silenciamento feminino foi tão bem articulado que muitos consideram como mulheres agradáveis aquelas que falam pouco e, preferencialmente, em voz baixa.nbsp;
Boas esposas são as que se integram ao grupo de amigos do parceiro, abandonando suas amigas e se isolando, o que pode ser bastante vantajoso para companheiros abusivos.nbsp;
Outra sensação que temos é de que não somos dignas de merecimento algum, seja em nossa profissão, seja em nossa vida pessoal, porque aprendemos a depositar nossa autoestima e nosso valor em conquistas alheias e que pouco dependem de nós.nbsp;
Já os homens, por outro lado, precisam de muito menos. O que faz um pai ser considerado excelente? O mesmo que para uma mãe é o mínimo. O que transforma um homem no tal homão da porra? Ele fazer em um mês o que uma mulher realiza nas primeiras horas do seu dia.nbsp;
Enquanto as conquistas masculinas têm graus diferentes de importância, sendo a primeira delas, na minha opinião, ter uma carreira de sucesso, e depois ter uma família e, então, quem sabe, cuidar da aparência, as femininas devem acontecer todas ao mesmo tempo e pra já!nbsp;
Achamos que alcançar o ideal feminino imposto vai nos trazer a segurança, o prazer e o status que buscamos para nos sentirmos acolhidas e aceitas.nbsp;
Porém, a incessante otimização feminina é uma armadilha que já naturalizamos, além de mais um peso em nossos ombros, que nos leva ao limite ou além dele.nbsp;
As piores mentiras são aquelas que contamos para nós mesmas, mas a construção da mulher ideal é tão inalcançável que pode ser mais fácil simular. Com isso, colocamos nosso prazer em segundo plano, fingindo orgasmos, aumentando a autoestima de parceiros e desrespeitando nossos desejos.nbsp;
Logo no início da leitura, com o exemplo da Cleópatra, percebi que a importância da nossa reputação e o sentimento de vergonha da nossa sexualidade foram muito bem planejados e influenciados pela tendenciosidade masculina que conta a história a partir de seu ponto de vista. O termo patriarcado pode soar como um grupo de homens sentados a uma mesa, conspirando pela infelicidade das mulheres, e em alguns casos, até se materializa dessa forma. Mas, na verdade, se trata de um conjunto de práticas instituído há milênios para manter as mulheres sob o domínio masculino.nbsp;
Apesar de escritas em 1976, as discussões aqui apresentadas por Stone nunca pareceram tão atuais. Afinal, é ilusório achar que passamos ilesas pela história. A cada parágrafo ficam mais evidentes as consequências dessa total invisibilização, ainda hoje. Muitas de nossas dores foram articuladas por uma sociedade que se recusou a admitir que Deus foi mulher um dia.nbsp;
Sou fiel à ideia de que podemos sim viver em uma sociedade igualitária, mas o primeiro passo para isso é rompermos as barreiras do silêncio, questionarmos e travarmos as batalhas corretas. Não indico este livro apenas para mulheres, mas também para homens. Espero que você conclua esta narrativa com a certeza de que o conhecimento aqui apresentado é de interesse de todos e essencial para, no futuro, reconhecermos e respeitarmos o fato de o sempre já ter tido as mulheres no topo”.nbsp;