A campanha eleitoral em Pernambuco fechou a semana com um ato de covardia contra a candidata à reeleição Raquel Lyra. Cartazes apócrifos espalhados pelas ruas do Recife vinculam a imagem da governadora à de mulheres que assassinaram os maridos.
Fernando Lucena, esposo de Raquel Lyra, faleceu vítima de um infarto no dia 2 de outubro de 2022, justamente no dia do primeiro turno da eleição. Portanto, ela nada teve com isso.
João Campos, principal adversário de Raquel Lyra, negou a participação da campanha dele no episódio, repudiou publicamente a agressão e defendeu a identificação e a punição dos responsáveis.
Contudo, o problema não é quem está de um lado ou do outro. É o método. A covardia é o instrumento.
O fato não é novo. O Pregador, no Eclesiastes, sentenciou: “Nada há de novo debaixo do sol”. E é fato.
Vejam vocês.
Em 1982, na primeira eleição direta para governador de Pernambuco desde 1965, o Estado assistiu a um episódio semelhante. Roberto Magalhães, candidato do PDS, apoiado pelo governador Marco Maciel, e Marcos Freire, senador pelo PMDB, disputaram o governo do Estado.
Em 1982, não havia segundo turno.
Marcos Freire abriu a campanha como franco favorito. As primeiras pesquisas indicavam-no com ampla vantagem na eleição. A vitória de Marcos Freire era “pule de dez!” Até que começaram a circular por Pernambuco fotografias da esposa do candidato, Carolina Freire, em um motel, na companhia de um aliado e amigo dele, o deputado federal Fernando Lyra.
Uma história sinistra.
O episódio já havia sido tornado público em 1981, um ano antes da eleição. Em 16 de abril daquele ano, o jornalista Carlos Chagas relatou o caso em sua coluna e, poucos dias depois, o Jornal do Brasil noticiou o assunto.
Quando chegou a campanha de 1982, aquilo que já era uma violência pessoal transformou-se em arma eleitoral. Milhares de panfletos começaram a circular em Pernambuco com a foto da esposa de Marcos Freire com o deputado Fernando Lyra.
Foram distribuídos nas ruas, em portas de escolas e supermercados. Chegaram pelo correio às casas dos eleitores. Houve a denúncia, registrada na época, de que panfletos teriam sido lançados de um avião que sobrevoou o Recife.
A agressão foi tão repugnante que atravessou as fronteiras partidárias.
Em agosto de 1982, o deputado Augusto Lucena, do PDS, partido de Roberto Magalhães, classificou no Congresso a campanha contra Marcos Freire como “sórdida, descabida e absurda”.
A história ganharia um capítulo perturbador dez anos depois.
Em 1992, Marival Chaves, ex-integrante do aparelho repressivo, prestou depoimento a uma comissão da Câmara dos Deputados e afirmou que os panfletos envolvendo Carolina Freire e Fernando Lyra haviam sido montados e editados na gráfica da Escola Nacional de Informações, ligada ao SNI.
Aquilo que, durante a campanha, parecia uma operação clandestina de origem desconhecida passava a ser atribuído, por alguém que conhecera por dentro o sistema repressivo, a estruturas do próprio aparelho de informações do regime militar.
Marcos Freire perdeu a eleição. Roberto Magalhães recebeu 913.774 votos; Freire, 816.085.
Quarenta e quatro anos depois, Pernambuco volta a assistir à tentativa de introduzir a tragédia familiar na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas.
Há uma linha que separa a dureza legítima da política da degradação moral.
Pode-se discutir o governo de Raquel Lyra, questionar suas políticas públicas, seus números, suas alianças e suas escolhas administrativas. Da mesma forma, em 1982, era perfeitamente legítimo combater politicamente Marcos Freire.
Mas nada disso importa para os covardes. E talvez seja essa a principal lição que une o Pernambuco de 1982 ao Pernambuco de 2026.
Roberto Campos dizia: “A burrice nacional não associa o efeito com as causas”.
A política, o povo e o país só perdem quando a covardia se transforma em estratégia para vencer uma eleição.


