Ainda atento ao livro de André Maurois – A Vida de Disraeli. Fixo-me no capítulo 7 – Doutrinas – quando o autor cita o interesse do personagem em ingressar na política:
“Quanto mais meditava, melhor Disraeli concluía que a carreira de homem público era a única forma de alcançar o sucesso capaz de lhe trazer verdadeira felicidade…Disraeli queria entrar para o parlamento.”
Em seguida, André Maurois me dá a oportunidade de comparar o sistema eleitoral da Inglaterra no século XIX com o sistema eleitoral brasileiro deste século XXI.
Diz Maurois sobre o desejo de Disraeli chegar ao parlamento: “Era uma tarefa difícil. O sistema eleitoral permitia que um jovem membro de boa família se tornasse membro do parlamento, quanto atingisse a maioridade, mas desencoraja-o de todas as maneiras.
Maurois oferece um retrato familiar para quem observa o sistema político brasileiro do século XXI. No século XIX na Inglaterra o acesso ao poder permanecia concentrado nas mãos de poucos. A política era dominada por proprietários de terra, famílias influentes e grupos econômicos.
Por aqui temos os clãs.
O Parlamento não representava proporcionalmente a população. Existiam os chamados burgos podres e burgos de algibeira, distritos eleitorais controlados por aristocratas que praticamente escolhiam quem seria eleito.
No Brasil, hoje, um deputado federal eleito por Roraima representa aproximadamente 80 mil habitantes, enquanto um deputado paulista pode representar mais de 600 mil. Quatrocentos mil em Minas Gerais e 350 mil no Estado do Rio de Janeiro.
O livro mostra que candidatos financiavam deslocamentos, hospedagens, alimentação e toda a estrutura necessária para mobilizar eleitores. Em muitos casos, o voto era tratado como mercadoria.
Existiam episódios de intimidação física de eleitores e disputas eleitorais marcadas não apenas pelo debate político, mas pela demonstração de força.
O capítulo revela ainda que o acesso ao Parlamento passava pelos salões da aristocracia. Antes de conquistar votos, era preciso conquistar relações. A política era uma extensão da elite social.
Na Inglaterra de Disraeli, os donos dos burgos controlavam a porta de entrada na política. No Brasil são, em tese, as estruturas partidárias; na prática, os donos dos partidos. Eles definem quem são os candidatos, o financiamento das campanhas, o tempo de propaganda, apoio institucional e composição das chapas.
Existe, contudo, uma diferença fundamental entre a Inglaterra de 1831 e o Brasil de hoje. Naquele sistema, um cidadão comum praticamente não tinha caminho para chegar ao Parlamento. No Brasil, esse caminho é difícil, caro e desigual, mas possível.
Nas últimas décadas, vimos sindicalistas, professores, policiais, militares, comunicadores, pastores, médicos e líderes comunitários conquistaram espaço político sem pertencer às antigas elites.


