fbpx

Lições sobre comunicação.

Compartilhe!

Ainda sobre o livro do Luiz Gutemberg. Vamos ao que disse Ulysses sobre comunicação e que Luiz Gutemberg publicou:

“Cheguei à presidência da Câmara, pela primeira vez, em 1956. Foi o tal ‘padecer no paraíso’ do verso. Era a glória, para os meus 38 anos, com o passado humilde e os sonhos ambiciosos, mas era também o desafio de enfrentar sozinho, da Mesa, o grupo que foi possivelmente a mais brilhante bancada oposicionista que já atuou na Câmara, a ‘banda de música’ da UDN dos anos 50.

Quando eu abria a sessão, com a leitura da ata — naquele tempo havia a leitura da ata, que precisava ser aprovada —, quando colocava a ata em discussão, Lacerda já pedia a palavra. E lá vinham Afonso Arinos, Prado Kelly, Baleeiro, Bilac Pinto, Oscar Dias Correia, Rafael Correa de Oliveira, Alberto Deodato.

Fui aprendendo o que havia de truques de oratória e nas velhas, seculares, artimanhas parlamentares, muitas criadas nas assembléias da Revolução Francesa e repetidas descaradamente através de duzentos anos em todos os parlamentos.

Quando não eram costumes do Parlamento britânico, porque o grupo era muito culto e viajado. O Bilac Pinto sabia tudo sobre o Congresso americano. O Otávio Mangabeira subia muitas vezes à Mesa e ficava comigo, seguindo os debates, antecipando as reações seguintes. Quem apartearia, o que ia dizer, como reagiria o orador. ‘Vai tripudiar’, ‘vai se irritar’, ‘perdeu o rumo do discurso’. Acertava quase sempre.

Outro que me fazia companhia e me dava muita satisfação era o Baleeiro. Ele me ensinou uma coisa muito importante. Chegava pra mim e dizia: ‘Hoje vou tocar fogo nesse plenário sem dizer nada’.

Subia à tribuna e começava, exaltado: ‘E este governo que aí está…’. Pronto. Era todo mundo procurando o microfone dos apartes e freqüentemente a sessão precisava ser suspensa.

Outro dia, o mesmo Baleeiro subia à tribuna e dizia, normalmente: ‘O senhor Juscelino Kubitschek, que está aí, passeando de avião e fingindo que trabalha…’. Falava tranqüilamente, sem se exaltar e dizia uma porção de provocações, ataques injustos e ninguém reagia. No dia seguinte, depois de ler no Diário de Notícias o discurso do Baleeiro, Juscelino telefonava indignado: ‘Seu Ulysses, como é que sou agredido nessa Câmara e ninguém me defende!’. O segredo era o modo de falar.”

Essa passagem é fértil para uma aula de comunicação política, porque a história narrada por Dr. Ulysses mostra algo importante: na política, o efeito de uma mensagem não depende apenas do conteúdo; depende da forma, do contexto, do público e da reação que o comunicador consegue produzir.

O episódio contado por Ulysses Guimarães começa em 1956. Aos 38 anos, Ulysses chegava pela primeira vez à presidência da Câmara dos Deputados e encontrava pela frente uma oposição parlamentar extraordinariamente qualificada: a famosa “Banda de Música” da UDN.

Nela estavam Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Prado Kelly, Aliomar Baleeiro e Bilac Pinto. Ulysses conta que foi naquele ambiente que começou a compreender os mecanismos da oratória, da provocação, do aparte e da reação parlamentar. Aliomar Baleeiro demonstrou a lição na prática:

Antes de um discurso, Baleeiro avisou a Ulysses: “Hoje vou tocar fogo neste plenário sem dizer nada.” Ele, então, subiu à tribuna e começou a falar em tom forte, arrogante e de denúncia: “E este governo que aí está…” Os defensores do presidente Juscelino correram aos microfones de apartes, e uma confusão se instalou. O clima esquentou.

Na sessão seguinte, Aliomar Baleeiro voltou à tribuna e, com voz calma, em tom de diálogo tranquilo, iniciou o discurso: “O presidente Juscelino Kubitschek passeia pelo mundo de avião para fingir que trabalha”… e continuou fazendo provocações e ataques ao governo.

Nenhum dos aliados do governo reagiu.

No dia seguinte, Juscelino leu o discurso e telefonou indignado para Ulysses: “Seu Ulysses, como é que sou agredido nessa Câmara e ninguém me defende!”

E Ulysses conclui a história com uma frase que poderia servir de ponto de partida para qualquer curso de comunicação política: “O segredo era o modo de falar.”

A comunicação política é ampla: ela contém o que foi dito, como foi dito, onde foi dito, para quem foi dito e em que momento foi dito.

Uma frase quase vazia — “E este governo que aí está…” —, pronunciada com indignação e teatralidade, incendiou o ambiente e comprovou que uma acusação grave, pronunciada com naturalidade, poderia passar quase despercebida.

Portanto: conteúdo e impacto não são sinônimos.

O tom de voz em um discurso, principalmente na comunicação política, não é embalagem. É parte da mensagem. E pode ser o elemento mais relevante.

Imagine duas pessoas dizendo exatamente a mesma frase: “Esse governo precisa explicar o que aconteceu.” Uma delas fala pausadamente, quase como quem formula uma pergunta. A outra aumenta a voz, faz uma pausa antes de “explicar”, aponta o dedo e encara o adversário.

As palavras são idênticas, mas as duas mensagens são diferentes.

É por isso que uma transcrição nunca reproduz integralmente um discurso político. Ela preserva as palavras, mas perde elementos decisivos da comunicação: entonação, pausa, ritmo, expressão facial, postura e ênfase.

Isso revela uma competência sofisticada de comunicação política: não basta saber falar; é preciso saber ler quem está ouvindo. O comunicador experiente não pensa apenas: “O que vou dizer?” Ele pensa: “O que acontecerá quando eu disser?”

Comunicação política não é monólogo. É uma interação estratégica. É mensagem → percepção → reação → nova mensagem.

Aliomar Baleeiro provocava; o adversário reagia, e a reação do adversário ampliava o resultado que Baleeiro queria alcançar. Portanto, o adversário passa a ser um instrumento da comunicação e do resultado que o orador pretende. Nesse sentido, o adversário também pode se transformar, involuntariamente, em instrumento da sua comunicação.

Outra lição que excede o exemplo apresentado por mim: quem perde o controle pode perder a comunicação

Em um debate, provocar uma reação emocional pode ser mais eficiente do que apresentar dez argumentos, porque, quando o adversário abandona a estratégia para responder à provocação, quem provocou passa a determinar a pauta.

Isso continua acontecendo em debates eleitorais, entrevistas e, sobretudo, nas redes sociais: um candidato publica uma provocação; o adversário responde; a imprensa repercute; e os apoiadores compartilham. Imediatamente, todos estão discutindo exatamente o assunto escolhido pelo primeiro candidato. Ele conquistou algo precioso na comunicação política: o controle da agenda.

Por fim, uma mensagem pode chamar atenção sem convencer e convencer sem mobilizar. Há políticos que aprenderam que vídeos curtos funcionam e fazem tudo em vídeos curtos. Outros descobriram que a indignação gera engajamento e passam a comunicar tudo indignados. Outros adotam o humor. Outros vivem de frases de efeito.

Mas nenhuma técnica funciona para todas as situações.

A pergunta correta não é: “Qual é a melhor maneira de falar?”

A pergunta correta é: “Qual é a melhor maneira de falar isto, para este público, neste momento e com este objetivo?”

Essa é uma definição muito mais madura de estratégia de comunicação.

A melhor lição de Ulysses: “O segredo era o modo de falar.”

Na comunicação política, não basta ter uma mensagem. É preciso compreender o efeito que a mensagem produzirá. Palavra, tom, pausa, imagem, ambiente, oportunidade e reação fazem parte do mesmo fenômeno.

Mais Publicações

Uncategorized

Royalties do Petróleo. Cuidado!

Douglas Ruas está eleito governador do Rio de Janeiro. Agora, cabe a ele encontrar o dinheiro para governar. E, nesse cenário, há uma luz vermelha

Uncategorized

Eduardo evapora.

Na disputa pelo governo do estado, Paes apoiou Benedita da Silva e Pedro Paulo para as duas vagas no Senado. Os dois perderam. No caso