“O Brasil é um país em que as pessoas acham muito, observam pouco e não medem praticamente nada.” (Engenheiro Agrônomo Fernando Penteado Cardoso). E eu complemento: É um país em que as pessoas leem pouco ou quase nada.
Por acharem muito, observarem pouco, não medirem nada e quase não lerem, os brasileiros oferecem conforto aos tiranos. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, é um romance e tanto sobre o tema.
O intelectual e crítico literário Manuel da Costa Pinto, escreveu o prefácio da edição de Fahrenheit 451, que eu possuo. Diz ele: “Bradbury não imaginou um país de analfabetos, mas um mundo em que a escrita foi reduzida a um papel meramente instrumental “.
E prossegue: “Podemos nos perguntar o que aconteceria se os livros fossem incinerados, varridos da face da terra até o ponto em que o único vestígio de milênios de tradição humanista estivesse alojada na memória de alguns poucos sobreviventes?
E conclui: Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens para apagar de vez a memória dos livros?” Nada disso, respondo. É suficiente alimentar a memória com coisas inúteis.
Em Fahrenheit 451 os bombeiros substituíram a função de apagar incêndios pela de incendiar livros. O chefe dos bombeiros designados para as queimas, Beatty, formula o motivo com clareza: “Um livro é “uma arma carregada na casa vizinha”.
Para ser oprimida uma sociedade dispensa a necessidade de um poder central onisciente, estilo “O Grande Irmão” de George Orwell no livro 1984, pois ela se organiza a partir de um consenso difuso, sustentado pela moral do senso comum e por uma rejeição ativa ao esforço intelectual.
As inquietações em Fahrenheit 451 são sufocadas por doses maciças de comprimidos narcotizantes e pela onipresença da televisão. As de nossa gente são pelo uso ininterrupto dos smartphones e reality shows.
O romance formula uma lógica com precisão perturbadora: pensar dói e ler causa dor.
Todo dia, toda hora, ouve-se louvores à democracia. Contudo, numa sociedade que acha muito, observa pouco, não mede quase nada e evita uma leitura que estimule pensar, os ditadores exercem o poder sem serem incomodados.
O diálogo entre os personagens Montag e Faber é desconcertante: “Os bombeiros raramente são necessários; o próprio público deixou de ler por decisão própria”.
A ordem já está garantida pela adesão voluntária à superficialidade. O autor de Fahrenheit 452 deixa claro que é inútil proibir livros se a própria sociedade os dispensar.
Ler Fahrenheit 451 é a oportunidade de reconhecer uma sociedade que já não precisa de censores porque aprendeu a censurar-se a si mesma.

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