Para o exercício da Presidência da República, deveria existir previsão legal de verbas por insalubridade. Para concordar, é suficiente observar o destino dos ex-presidentes do Brasil — de Deodoro, que renunciou, passando por Collor, Dilma, Lula e Bolsonaro.
O cargo cobra um preço alto, quase sempre pago depois.
Hugo Napoleão — três vezes deputado federal, duas vezes senador, duas vezes governador do Piauí e três vezes ministro de Estado – é o autor da obra. Ainda jovem, ele integrou o grupo de advogados responsáveis pela defesa do ex-presidente Juscelino Kubitschek, vítima das arbitrariedades dos generais autoritários que governaram o Brasil entre 1964 e 1985.
“Eu fui advogado de JK” é uma obra densa. Dela eu extraí trechos úteis para os dias atuais. No prefácio, Maria Estela Kubitschek, filha do ex-presidente, registra um dos momentos mais duros da vida do pai:
“Um dos momentos mais difíceis na vida do meu pai foi quando, depois de cassado e ao voltar do exílio, viu-se novamente perseguido pelo governo da ditadura, ao ser submetido a uma rotina exaustiva de depoimentos que beiravam o desrespeito e a ilegalidade.”
No capítulo 16, dedicado à ainda possível candidatura de JK à Presidência da República, há um trecho de seu discurso na convenção partidária:
Ainda neste capítulo, diante dos boatos sobre a cassação de JK, o jurista Sobral Pinto indagava: “Por que, senhor general, cassar o mandato de Juscelino Kubitschek?” E ele mesmo respondia:“Na impossibilidade de vencer o ex-presidente nas urnas, seus adversários querem arrancar-lhe o direito da cidadania, único expediente capaz de afastá-lo da luta eleitoral.”
No capítulo 17, Hugo Napoleão registra o discurso de JK ao receber a notícia da cassação:
“Este ato não marcará o fim do arbítrio. O vendaval de insânias arrastará, em sua violenta arrancada, até mesmo os meus mais rancorosos desafetos. Um por um, eles sentirão os efeitos da tirania que ajudaram a instalar no poder.”
Em seguida, Hugo Napoleão identifica Carlos Lacerda, então segundo colocado nas pesquisas para a Presidência da República, que elogiou a cassação de JK como um “ato de coragem política”, ainda que afirmasse preferir derrotá-lo nas urnas.
O livro é rico em informações. Traz, inclusive, a lista completa do Plano de Metas apresentado por JK ao povo brasileiro — um plano para realizar 50 anos em 5, integralmente cumprido durante seu governo.
Por fim e ao cabo, a obra dialoga e se complementa com outro trabalho essencial sobre a trajetória de Juscelino: JK, o artista do impossível, de Cláudio Bojunga.


