“O erro e o pecado são meus, mas onde está a nossa vontade, se tudo é vontade de Deus?”
Escreveu Oswaldo Montenegro, numa oração belíssima. Ele termina a canção dizendo: “E a mim, que sou tão descuidado, não resta mais nada a fazer. Apenas dizer que não entendo. Meu Deus, como amo você.”
Pense comigo: se tudo fosse vontade de Deus, onde ficaria a nossa? Seríamos marionetes e Deus, o manipulador. Isso não nos ofenderia? Talvez. Mas nada seria tão desastroso quanto acreditar que Deus não se ofenderia com essa ideia. Ele nos fez à Sua imagem e semelhança, e justamente por isso colocou em nós a liberdade de decidir o próprio caminho.
Mesmo assim, temos a mania de terceirizar as consequências das nossas escolhas:
Se adoecemos, “Deus permitiu”.
Se somos curados, “Deus nos curou”.
Se alguém vira presidente, “Deus ungiu”.
E, se o presidente não serve, é porque “Deus escreve certo por linhas tortas”.
Para que Deus aja, é necessário que o ser humano abra mão do seu poder de agir — não da liberdade de decidir que esse seja o processo. No Getsêmani, Jesus pediu: “Pai, se queres, passa de mim esse cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua.” Cristo decidiu entregar-se à vontade do Pai porque teve liberdade para isso.
No entanto, muita gente toma na vida as decisões que quer, age como quer e, quando nada acontece como gostaria, transfere para Deus a tarefa de consertar os erros gerados pela própria liberdade de agir. Deus deixa de ser Senhor para virar mordomo, bombeiro ou advogado.
Almir Guineto, outro mestre da música brasileira, escreveu Saco Cheio:
“Os habitantes da Terra estão abusando; o nosso supremo divino sobrecarregando. Fazendo mil besteiras e o mal sem ter motivo. E só se lembram de Deus quando estão em perigo.”
Se há miséria no mundo, a responsabilidade é dos que têm muito e não se importam com os que têm pouco — mas também pode vir da preguiça de uns, da diligência excessiva de outros ou da irresponsabilidade de quem coloca pessoas no mundo esperando que outros cuidem.
Se ainda existem doenças incuráveis, é porque a ciência não avançou o suficiente — embora já tenha avançado muito, graças a quem trabalha para tornar a vida mais longa e saudável.
Se há roubos, é porque alguém decidiu tomar à força aquilo que não quer conquistar pelo trabalho.
Se há tiranos, é porque existem covardes que cumprem suas ordens sem questionar.
Se juízes julgam mal, isso decorre das decisões deles — ou de advogados ruins, leis mal formuladas ou falhas do sistema jurídico e político.
Tudo isso nasce da mesma fonte: a liberdade que cada um tem para decidir e agir.
E poderíamos seguir nessa linha para explicar praticamente todos os problemas do mundo.
Na raiz de tudo está o ser humano, com sua liberdade de escolher.


