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Como me tornei um “escriba”: da redação sobre Dom Pedro II à estratégia política”

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A minha primeira experiência como escriba aconteceu em 1967, quando completei 14 anos de idade. Cumpri uma tarefa encomendada por um professor de Língua Pátria — era assim que o ensino de Português era chamado nas escolas daquele tempo. Escrevi sobre a expulsão de Dom Pedro II e da família imperial.

O dever me deu uma satisfação maior do que o nervosismo provocado pela montanha de papel amassado e jogado no lixo. Mas venci a parada e recebi um “Ótimo — gramática e conhecimento do tema” no alto da redação.

Eu estudava em Brasília, no CASEB. O professor desapareceu antes do final do ano. O motivo, nunca soube. Comentava-se, à boca pequena, que fora vítima de uma denúncia feita por um colega dedo-duro.

Naqueles anos, em todos os lugares, existiam dedos-duros, alcaguetes e agentes infiltrados pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), encarregados de informar aos verdugos do Estado quem não se comportava de acordo com as regras vigentes.

O Estado tinha o poder de condenar pessoas à morte, ao ostracismo e, muitas vezes, famílias inteiras à infelicidade. Será que hoje não?

No texto sobre a expulsão do imperador, afirmei: Dom Pedro II foi afastado do trono e do Brasil porque sua filha, a Princesa Isabel, havia libertado os escravos e seria sua sucessora. Um absurdo inadmissível para a elite masculina e machista da época. Ela era mulher e, além disso, atrevida. E concluí: ainda não sei o que ganhamos com a República.

Gostei do resultado do que fiz e passei a cultivar três hábitos: a música, por meio do estudo da teoria e da prática do acordeon; a leitura e a escrita. Com o tempo, o acordeon ficou guardado. Os livros e os cadernos, nunca. Hoje os cadernos chamam-se drive. Durante algum tempo — não muito — chamaram-se pendrives.

O trabalho com a política e o gosto pela leitura e pela escrita acabaram me rendendo um título pomposo: ghost-writer. “Não gosto dessa coisa de fantasma”, dizia minha mãe. Desde então, tenho escrito sobre quase todos os temas que a política provoca e desperta.

O primeiro trabalho dessa fase de escritor por encomenda foi a elaboração de um discurso para ser pronunciado no plenário da Câmara dos Deputados em homenagem ao presidente da Romênia, Nicolae Ceaușescu, que visitou o Brasil a convite do colega ditador, o general Ernesto Geisel.

Isso aconteceu em maio ou junho de 1975. Eu já estava no Banco do Brasil, onde tomei posse em abril, iniciando uma carreira que sobreviveria até outro mês de abril, o de 1999.

Catorze anos depois de visitar o Brasil e assinar uma série de acordos bilaterais, Nicolae Ceaușescu foi fuzilado ao lado da esposa durante a Revolução Romena. É possível que tenha levado consigo, para onde foi, a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul entregue pelo general Geisel.

Por ocasião da visita do ditador, a Cinemateca do MAM apresentou a Mostra do Cinema Romeno, com a exibição de três longas-metragens inéditos que, segundo O Globo, poderiam ser apresentados como “o cartão de visitas, à plateia brasileira, dos importantes trabalhos realizados por essa indústria cinematográfica do bloco socialista”. Caramba! O Sistema Globo já impulsionava conceitos…

Ao longo desse tempo — iniciado em 1967 e que só terminará quando eu morrer — tenho utilizado a escrita como terapia e fonte de trabalho. Hoje, mais como terapia.

Futebol, política, religião, Estado, povo…

Passo por tudo. Para escrever, leio, observo e recolho experiências e manifestações culturais.

Movido por essa diversidade temática, fui construindo uma unidade conceitual: um olhar atento para as lições oferecidas pelas decisões dos agentes do Estado — eleitos, concursados ou premiados com nomeações por sua capacidade de bajular.

Até chegar à estratégia como tema principal foi um pulo.

Descobri meu interesse pela estratégia observando os movimentos dos militares de alta patente para transferir o poder aos civis sem sofrer as consequências das decisões que haviam tomado.

Nicolae Ceaușescu e sua esposa pagaram com a vida pelo que fizeram. Já os oito militares que ocuparam a Presidência do Brasil durante o período das trevas — cinco presidentes e uma junta formada pelos três ministros militares — continuam sendo homenageados.

Nem a criação de uma tal Comissão da Verdade conseguiu desabonar a turma.

Aprendi que estratégia não é desejo. Estratégia é a capacidade de compreender o mundo como ele é antes de tentar fazê-lo diferente.

Não discuto ideologias. Procuro compreender os mecanismos que produzem sucesso ou fracasso político. Meus textos abordam a importância da informação, da estratégia, da narrativa, da liderança e da capacidade de interpretar corretamente as circunstâncias.

Minha escrita combina análise política, reflexão histórica e observação estratégica. Por isso, o que escrevo situa-se na tradição dos ensaios políticos voltados menos para a defesa de causas específicas e mais para o estudo da ação humana no exercício do poder.

Aprendi, enfim, que a realidade não pode ser dobrada pela vontade. Ela precisa ser compreendida para que possa ser transformada. Esse tem sido o princípio das orientações que ofereço às pessoas que me procuram em busca da minha experiência e do conhecimento acumulado ao longo da vida.

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