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Quem é o médico? Quem é o monstro?

“A Arte da Entrevista”. 

“A Arte da Entrevista – Uma antologia de 1823 aos nossos dias”, é uma coletânea organizada pelo jornalista Fábio Altman. Uma obra preciosa.  

Ele contém Nela entrevistas com José Bonifácio de Andrada e Silva, Mark Twain, Greta Garbo, Freud, Al Capone, Adolf Hitler, Mussolini, Caetano Veloso, Pedro Collor, Cabo Anselmo, Glauber Rocha, Fidel Castro e outros bons e maus-caráteres. 

Destaco, por agora, a entrevista com Robert Louis Stevenson, autor de O Médico e o Monstro, concedida por ele ao The New York Herald, no dia 8 de setembro de 1887, no momento da sua chegada em Nova York. 

Stevenson explica que viajou para tratar da saúde debilitada pela tuberculose. Apesar de gostar muito de Nova York, ele desejava, naquele momento, sair rapidamente da cidade e refugiar-se no campo.

Perguntado sobre a inspiração para criar as histórias que criou,  Stevenson contou que muitas vezes encontrava ideias literárias durante os sonhos. Para ele, o sonho e a criação consciente se misturavam. Dormindo ele construía narrativas. 

Algumas histórias apareciam nos pesadelos intensos que o faziam acordar gritando. Ele, então, levantava-se da cama e começava a trabalhar. 

Foi assim com a criação de O Médico e o Monstro. Stevenson sonhou com um homem acuado que toma uma droga e se transforma em outro ser. Ao despertar, percebeu imediatamente que havia encontrado o elemento que procurava há tempos. O sonho forneceu o núcleo da ideia; depois, porém, a história precisou ser conscientemente desenvolvida e escrita.

“O mais estranho é que eu sempre sonho com histórias. Há algum tempo, eu também sonhei com a história de Olalla, incluída no meu livro The Merry Man e, no momento, tenho duas histórias ainda não escritas com as quais também sonhei(…). Tudo o que eu sonhei sobre o doutor Jekyll foi que um homem estava imprensado dentro de um armário, quando engoliu uma droga e se transformou em um outro ser”.

Jekyll e Hyde são as duas faces do protagonista de O Médico e o Monstro. É um livro curto, extraordinariamente influente: transformou os nomes “Jekyll e Hyde” numa expressão usada até hoje para descrever alguém que parece possuir personalidades radicalmente contrastantes. 

Quem são Jekyll e Hyde?

O Dr. Henry Jekyll é um médico respeitado, culto e socialmente admirado na Londres vitoriana. Entretanto, percebe dentro de si desejos e impulsos incompatíveis com a imagem pública que construiu.

Ele passa a acreditar que o ser humano não constitui uma unidade moral simples. Dentro de uma mesma pessoa convivem tendências contraditórias — aquilo que consideramos bem e mal, civilização e instinto, autocontrole e desejo.

Jekyll então desenvolve uma substância química capaz de separar essas dimensões. Quando a ingere, transforma-se em Edward Hyde. 

Hyde é fisicamente diferente e, sobretudo, moralmente diferente. Ele pode realizar aquilo que Jekyll reprime sem comprometer a reputação do respeitável médico.

No início, isso parece oferecer a Jekyll uma solução perfeita: ser virtuoso como Jekyll e entregar-se aos impulsos como Hyde.

Mas aí está a tragédia. O verdadeiro problema de Jekyll, que acredita ser possível separar o bem do mal e controlar quando cada personalidade aparecerá.  Aos poucos, porém, Hyde se fortalece.

As transformações passam a acontecer espontaneamente. Jekyll já não precisa tomar a substância para se tornar Hyde. Aquilo que inicialmente parecia libertação converte-se em escravidão.

E há uma sutileza importante: Hyde não é simplesmente outra pessoa que apareceu dentro de Jekyll. Ele é uma manifestação de aspectos do próprio Jekyll. Por isso, uma das leituras mais interessantes do livro não é:

“Existem duas pessoas dentro de cada ser humano.”

Jekyll quer praticar determinados atos sem deixar de considerar-se um homem respeitável. Ele pretende conservar a virtude de Jekyll enquanto transfere a culpa para Hyde.

Stevenson mostra que essa separação é impossível.

O livro pode ser lido como crítica à hipocrisia social da Inglaterra vitoriana. Havia forte valorização pública da respeitabilidade, disciplina, religião e moralidade, acompanhada de uma vida privada que nem sempre correspondia a esses padrões.

Jekyll representa precisamente essa tensão: o homem socialmente respeitável que esconde aquilo que não pode admitir publicamente — e talvez nem para si próprio.

É por isso que Hyde provoca uma repulsa quase instintiva nas outras personagens. Stevenson não precisa descrevê-lo como um monstro convencional. Há alguma coisa nele que parece profundamente errada.

E há uma ideia ainda mais profunda

No imaginário popular, Jekyll tornou-se o “bom” e Hyde, o “mau”. O romance é mais sofisticado.

Jekyll não é inteiramente bom. É ele quem  deseja Hyde e cria a fórmula. 

Jekyll acredita que pode satisfazer seus desejos sem assumir integralmente a responsabilidade por eles.

Esse é talvez o aspecto mais moderno do livro: o perigo não está simplesmente em termos um “Hyde” dentro de nós; está em acreditarmos que podemos libertá-lo sem pagar o preço por aquilo que ele faz.

É justamente essa questão — responsabilidade, desejo, repressão e identidade — que faz O Médico e o Monstro continuar mais interessante do que a simples história de um cientista que se transforma num monstro.

Estou autorizado a transformar “Jekyll” em um político em campanha. “Hyde”, em um político no exercício do mandato e o voto na fórmula mágica. 

É por ler desse modo a política que gente de bem a abandona. 

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Grandioso senhor Anton.

O senhor Anton Karl Biedermann, que está com 102 anos de idade e tem mais juízo na cabeça e uma proposta melhor do que todos os demais candidatos a presidente. Confira: 

Em entrevista concedida à jornalista Giane Guerra, no Canal Zero Hora, o empresário Anton Karl Biedermann, aos 102 anos de idade, com boa saúde e plena lucidez, fez uma reflexão sobre a trajetória política e econômica do Brasil, baseada em quase um século de experiências pessoais.

“Fico, às vezes, meio desanimado. É lógico que isso acontece com todas as pessoas. Mas eu já vi muita coisa na vida, principalmente na parte política. Eu gosto muito de história. O que eu já vi é impressionante. Começou com a Revolução de 30, do Getúlio. Eu tinha seis anos e vi, na frente da minha casa, vários revolucionários armados, com espingardas e fuzis, correndo a cavalo em direção ao quartel de Rio Grande, que ficava perto da minha casa.

Foi a primeira grande lembrança que tive e nunca mais esqueci. É lógico que, com seis anos, a gente fica impressionado com aquilo. E teve o tiroteio no quartel; ele ficou todo marcado pelos tiros e permaneceu assim durante muitos anos. Depois vieram outros acontecimentos que sempre acompanhei.

Veio o governo Getúlio, depois sua queda, os governos que o sucederam, a ditadura militar, a redemocratização e, por fim, isso que estamos vendo hoje.

E o que seria isso?

Isso é quase um caos.

Por que o senhor diz isso? A que o senhor está se referindo?

Qualquer lado para o qual se olha, há roubo. E roubo em grande escala, em escala gigantesca. Basta ver os casos mais recentes. Quanta gente está envolvida nas emendas parlamentares. Imagina quantas milhares de pessoas participam disso e como dominam todo o ambiente.

Veja a dificuldade até para instalar uma CPI, mesmo que ela depois não seja eficiente. Porque há muita, muita gente envolvida. Tenho a impressão de que o crime organizado se apossou das principais estruturas do poder público no país: Justiça, Executivo e Legislativo.

Uma situação como essa o senhor nunca tinha visto?

Não. Nunca. Já houve muita coisa neste país. Tivemos o período anterior à Revolução de 1964. É difícil falar nisso, porque são capazes de me apedrejar na rua. Mas o governo de João Goulart foi, na minha opinião, um governo horroroso, semelhante a esses que estão aí hoje. Tanto que não foi o Exército que quis a revolução. Foi o povo brasileiro, que não suportava mais aquela situação. Agora, porém, parece que as pessoas estão mais conformadas. Ninguém dá muita importância. Quase tratam isso como algo banal.

Estamos em período de campanha eleitoral. O senhor entende que a política hoje oferece opções piores do que em outros momentos?

Conversando com um grande empresário, ele me disse uma frase que ficou gravada na minha memória. Disse que não fomos nós que escolhemos estar diante de duas opções. Colocaram apenas uma alternativa: votar no menos ruim. E o menos ruim é muito ruim. Para mim, isso define tudo.

O que o senhor acha que poderia ser feito?

O Brasil precisaria começar eliminando a corrupção. Não sei como isso seria possível, mas seria fundamental. Depois, precisaria ter pessoas aptas, conhecedoras, verdadeiros estadistas governando este país.

Eu ouvi a atual presidente dizer que é preciso gastar para crescer. Eles insistem nisso. Vi isso ser repetido várias vezes. Se fosse assim, não existiriam pessoas pobres nem países pobres. Bastaria gastar para crescer. Mas não é assim. Existe uma limitação financeira. Às vezes tenho a impressão de que nossos governantes e legisladores nunca aprenderam a aritmética do colégio. Não se pode gastar mais do que se recebe.

Eventualmente, uma empresa pode fazer um investimento acima da sua capacidade, desde que esse investimento traga retorno no momento oportuno. Isso é possível. Mas não se pode ir além disso.

Quando o senhor fala em estadista, em que sentido?

No sentido de pensar no país. O que nós precisamos? Precisamos de uma educação adequada. A educação só piorou ao longo dos anos. E, sem educação, não se vai a lugar nenhum.

Também precisamos de pessoas que entendam que o Estado não pode gastar mais do que arrecada. Caso contrário, compromete toda a geração futura.

O importante seria que a parte melhor da população se unisse para combater a parte pior e a excluísse. Que as pessoas se exponham, não se encolham, porque o mal está dominando. As pessoas se encolhem por medo, mas não podem fazer isso, senão os maus ocupam todos os espaços.

Eu sempre cito uma frase da economia: a moeda má expulsa a boa. Isso quer dizer que, quando existem duas moedas, uma boa e outra ruim, só a ruim circula, porque todos querem guardar a boa.

Na política brasileira acontece algo semelhante: o político mau expulsa o bom. É muito difícil ver uma pessoa realmente boa conseguir crescer nesse ambiente.”

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Minhas estantes.

“A Mulher Degenerada“.

Uma estante não é apenas um lugar onde guardamos livros. Ela conserva ideias, lembranças, descobertas e inquietações. Há livros que permanecem silenciosos durante anos; outros parecem continuar discutindo conosco após a leitura.

Ao comentar os que tenho não desejo fazer resenhas acadêmicas, mas compartilhar autores e obras que, por diferentes razões, merecem ser conhecidos, lidos e debatidos.

A Mulher é uma degenerada” publicado em 1924 por Maria Lacerda de Moura e que me chegou em 2018, reeditado pela Tenda de Livros. 

Uma das pessoas mais independentes e corajosas do pensamento social brasileiro. mineira, professora e escritora. Ela se atreveu a questionar não apenas a desigualdade entre os sexos, mas também o casamento, a Igreja, o Estado, o capitalismo e a própria política institucional.

Carolina O. Ressurreição abre a edição: “ Se hoje somos, é porque antes outras já foram. Completam-se quase cem anos desde que A mulher é uma degenerada tomou sua forma de livro. Hoje, o Brasil que recebe a reedição da Tenda de Livros não é o mesmo que recebeu a primeira edição. Tampouco é outro muito dissimilar. O tempo de Maria Lacerda de Moura é, paralelamente, o de sua atualidade e de seu anacronismo. 

Se já foi moderno demais para seu tempo histórico, hoje se mantém relevante, mas caminhamos o suficiente para ter ressalvas ou atualizações de seu pensamento. Caminhamos em uma trilha estreita, porém que existe graças aos esforços de Maria Lacerda, e tantas outras mulheres menos afortunadas; sua obra tem o valor do tempo, que comprova mas também ensina”. 

O título do livro é deliberadamente provocativo. Ele responde, com ironia, às teorias científicas e pseudocientíficas que circulavam entre o final do século XIX e o começo do século XX. Influenciados pelo positivismo, pelo darwinismo social e por estudiosos como Cesare Lombroso, médicos, juristas e psiquiatras procuravam demonstrar que a mulher seria biologicamente inferior ao homem: um ser incompleto, emocionalmente instável e intelectualmente limitado.

Essas ideias ofereciam uma justificativa aparentemente racional para a submissão jurídica, econômica e social das mulheres.

Maria Lacerda inverteu o argumento. Se algumas mulheres apresentavam comportamentos considerados sinais de “degeneração” — como a futilidade, a submissão ou a hipocrisia —, isso não decorreria de sua natureza biológica. Seria o resultado de uma sociedade que, ao longo da história, lhes negara educação, liberdade, autonomia econômica e o direito de decidir sobre a própria vida.

A suposta inferioridade feminina não era natural. Havia sido socialmente produzida.

Maria Lacerda também se afastou do feminismo institucional predominante em sua época. Enquanto lideranças como Bertha Lutz concentravam esforços na conquista do voto feminino e da igualdade jurídica, ela demonstrava profundo ceticismo em relação à política formal.

Não se opunha à ampliação dos direitos das mulheres. Questionava, porém, se o ingresso delas no Parlamento seria suficiente para produzir uma verdadeira libertação. Para a autora, ocupar posições dentro de um sistema opressor não significava necessariamente transformar esse sistema.

A emancipação deveria ser mais profunda. Precisaria nascer de uma revolução cultural e da formação de uma nova consciência. A educação libertária teria papel decisivo nesse processo, reunindo ciência, ética, arte, educação sexual e aquilo que ela chamava de higiene mental.

Outro aspecto surpreendentemente atual do livro é a defesa da maternidade consciente.

Maria Lacerda recusava a ideia de que toda mulher tinha como destino obrigatório tornar-se mãe. Também criticava a transformação do corpo feminino em instrumento destinado a fornecer trabalhadores ao capitalismo e soldados às guerras. A mulher deveria ter o direito de decidir se desejava ser mãe e em que momento exerceria a maternidade.

É difícil ignorar a ousadia dessa posição no Brasil de 1924.

Um século depois, o livro permanece inquietante porque muitas das estruturas denunciadas pela autora não desapareceram completamente. Mudaram de forma, ganharam novas linguagens e, em alguns casos, tornaram-se mais discretas. Continuamos discutindo autonomia feminina, controle do corpo, maternidade, casamento, educação, participação política e desigualdade.

Os livros que permanecem vivos são justamente aqueles que se recusam a ficar presos ao tempo em que foram escritos. Eles atravessam as décadas e voltam a nos interrogar.

Série: Os livros que estão na minha estante.

#Livros #Literatura Brasileira #Maria Lacerda De Moura #História #Feminismo #Educação #PensamentoBrasileiro

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PARTIDOS DECRÉPITOS.

ACABARAM COM O PRAZER E COM O ENCANTO

Sou do tempo em que as convenções dos partidos políticos eram palco de disputas, um jogo sadio, com festas e bastidores. Os filiados escolhiam os dirigentes e, em convenção própria, os candidatos às vagas nos parlamentos e no Poder Executivo. As conversas e composições duravam meses, mas nunca chegavam plenamente resolvidas. As decisões só ocorriam nos plenários dos encontros.

Como secretário-geral do PFL no estado e na cidade do Rio de Janeiro e, em outras ocasiões, como primeiro-tesoureiro ou mesmo simples membro dos diretórios, organizei convenções e vi o desenrolar de disputas e composições.

Em 1986, por exemplo, os filiados ao partido tiveram que decidir se concordavam com uma aliança com o PMDB para apoiar a candidatura de Moreira Franco ao governo ou se a melhor escolha seria o senador Nelson Carneiro. Em 1994, houve outra disputa acirrada, porque o então presidente da CSN, Roberto Procópio Lima Neto, que ainda não era deputado federal, insistiu em ser candidato pelo partido, impedindo uma aliança com o PSDB para a eleição de Marcello Alencar.

No voto, vencemos a proposta de Lima Neto, e o partido assinou a aliança. Lima Neto ficou com uma vaga na disputa pelo mandato de deputado federal e foi eleito. Até “primárias” tivemos no partido, quando, em 1985, Álvaro Valle e Rubem Medina disputaram a vaga de candidato à Prefeitura do Rio. Álvaro perdeu a disputa, saiu do partido e criou o PL.

Hoje, não é mais assim. Os filiados não têm voz nem voto. Todo o prazer e o encanto das disputas partidárias cederam lugar a essa coisa esquisita, que limita a participação política e escraviza o povo às escolhas feitas por dirigentes com mandatos vitalícios e hereditários.

Antes leões com vigor, hoje, os partidos são leões decrépitos e desdentados. 

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O Bonaparte do Kassab

A tragédia das alianças puramente pragmáticas é que elas costumam devorar seus arquitetos.

Sieyès descobriu isso tarde demais, depois de imaginar que poderia utilizar Napoleão Bonaparte como instrumento de uma engenharia política concebida nos bastidores. 

Gilberto Kassab talvez esteja diante de um dilema semelhante. E Lula pode descobrir que emprestar força eleitoral não significa conservar o controle sobre quem dela se beneficia.

O trio formado em 1799 por Emmanuel-Joseph Sieyès, Roger Ducos e Napoleão Bonaparte é um dos exemplos mais acabados de como o cálculo político pode escapar ao controle de seus formuladores.

Sieyès conhecia as engrenagens institucionais e pretendia substituir o desgastado Diretório por uma ordem constitucional mais estável. Faltava-lhe, porém, uma “espada”: alguém dotado da força e do prestígio que os arquitetos civis da conspiração não possuíam.

Bonaparte parecia o homem adequado. Jovem, popular e coberto pela glória militar, forneceria a energia necessária para derrubar o regime e implantar o novo arranjo. Sieyès acreditava que o general serviria ao projeto. Não percebeu que, ao entregar-lhe a força indispensável ao golpe, transformava o instrumento em senhor da obra.

Ducos, político adaptável e pragmático, limitou-se a perceber a direção dos ventos e a posicionar-se ao lado dos vencedores.

Depois do 18 de Brumário, Bonaparte não aceitou o lugar que lhe haviam reservado. Interveio na elaboração da Constituição do Ano VIII, concentrou o poder no cargo de primeiro-cônsul e relegou Sieyès e Ducos a posições honoríficas. O regime concebido para estabilizar a República abriu caminho para o Consulado vitalício e, posteriormente, para o Império.

A espada dispensou a mão que pretendia manejá-la.

É sob a luz dessa lição que se deve observar a relação entre Gilberto Kassab, Lula e Eduardo Paes. Não porque o Brasil contemporâneo reproduz o 18 de Brumário, mas porque as analogias históricas ajudam a reconhecer padrões de comportamento. O que importa, neste caso, é o padrão do líder que utiliza as alianças responsáveis por sua ascensão e as abandona quando já não precisa delas.

Nessa leitura, o Bonaparte não é Lula. É Eduardo Paes.

Kassab, o arquiteto

Gilberto Kassab ocupa o lugar mais próximo ao de Sieyès. Sua força não está na mobilização das ruas, mas na arquitetura partidária. Ele conhece a máquina, distribui posições, aproxima interesses incompatíveis e transforma fragmentação em poder.

O PSD de Kassab tornou-se uma engrenagem capaz de conviver com governos de orientações distintas. Mais do que sustentar uma identidade ideológica rígida, o partido procura ocupar o centro do sistema e tornar-se necessário a qualquer maioria.

A candidatura de Eduardo Paes ao governo do Rio expressa essa lógica. Kassab pretende oferecer-lhe uma aliança suficientemente ampla para atravessar as fronteiras da polarização nacional. Já admitiu, inclusive, a possibilidade de múltiplos palanques presidenciais em torno de Eduardo Paes.

A inversão é reveladora: não seriam os candidatos ao Planalto que conduziriam o palanque fluminense; seriam eles que procurariam abrigo no palanque de Eduardo Paes. O beneficiário da arquitetura começa a tornar-se maior do que o arquiteto.

Lula, o fiador eleitoral

Lula não corresponde a Ducos nem a Sieyès. Sua dimensão política impede uma equivalência tão simples. Ele possui história, votos, máquina federal e ligação direta com parcelas expressivas do eleitorado. Está, porém, na etapa final de sua trajetória política e comanda um partido que ainda não encontrou quem possa sucedê-lo à altura.

No Rio, Lula funciona como fiador eleitoral de Eduardo Paes. Empresta-lhe legitimidade popular, aproxima-o do eleitorado de esquerda e dificulta o surgimento de uma candidatura própria do PT. Esse empréstimo, entretanto, não assegura fidelidade futura.

Ao apoiar Paes contra adversários considerados mais perigosos, Lula fortalece um governante que, instalado no Palácio Guanabara, terá território eleitoral, máquina administrativa e ambições próprias.

A trajetória de Paes é marcada por aproximações, rupturas e mudanças de campo. Cesar Maia, Sérgio Cabral e o próprio Lula já experimentaram as conveniências e o resultado da obstinação de Eduardo. Ele aproxima-se de quem controla os recursos necessários a cada etapa e se afasta quando a associação deixa de ser útil.

Sua habilidade não consiste em permanecer fiel a uma coalizão, mas em fazer-se necessário a coalizões diferentes — por vezes, contraditórias.

É justamente aí que Eduardo se aproxima de Bonaparte: na capacidade de receber dos outros os meios de ascensão e convertê-los em poder próprio.

A grande ilusão

Para conquistar o governo do Rio, Paes precisa da estrutura de Kassab, do eleitorado lulista, da capilaridade de lideranças conservadoras e da tolerância de forças contraditórias. A candidatura dele transforma-se no ponto de encontro de interesses incompatíveis, porque cada participante acredita que poderá influenciá-lo depois da vitória.

Essa é a grande ilusão.

Uma vez eleito, Paes deixará de ser apenas o candidato de Kassab e o aliado regional de Lula. Governará o terceiro estado mais populoso do país, controlará uma máquina política poderosa e poderá apresentar-se como liderança nacional capaz de dialogar com a esquerda, a direita e o centro.

Alianças estritamente pragmáticas carregam uma cláusula invisível de dissolução: duram enquanto todos precisam uns dos outros. Quando um dos aliados adquire força suficiente para caminhar sozinho, a lealdade deixa de ser virtude e passa a ser custo.

Sieyès imaginou que controlaria Bonaparte porque havia concebido o novo regime. Descobriu que o poder não pertence necessariamente a quem desenha o tabuleiro, mas a quem termina ocupando-o.

No Rio, Kassab pode construir a aliança e Lula pode fornecer parte decisiva dos votos. Resta saber o que sobrará da aliança quando Eduardo Paes já não precisar de seus fiadores.

O 18 de Brumário oferece uma resposta incômoda: o instrumento escolhido para executar o plano pode terminar no comando — depois de descartar aqueles que lhe abriram o caminho. 

A melhor estratégia para livrar Gilberto Kassab e Lula dos dissabores que Maia e Cabral já conhecem está nas mãos dos eleitores. Uma derrota ao Eduardo Paes fará um bem danado aos seus aliados de agora, ao estado e ao próprio povo. 

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“Fale suavemente…”

Benjamin Disraeli foi o mais famoso dos primeiros-ministros ingleses, depois de Winston Churchill, mas a estréia dele na tribuna do parlamento foi complicada. Ele foi interrompido o tempo todo por gargalhadas loucas e deboches. Frustrou-se. 

O fato está relatado no livro de André Maurois, “A Vida de Disraeli” de onde consta uma lição que lhe foi dada por um velho e experiente parlamentar: “Deixe de lado seu temperamento durante a sessão. Fale suavemente, pois não deve se mostrar intimidado, mas seja conciso. Seja sereno, tente ser menos expressivo, argumente e raciocine sem querer ser perfeito, pois se pensar com perfeição, vão achar que está tentando ser arrogante. Surpreenda-os abordando minúcias do assunto. Cite números, datas, cálculos. Em pouco tempo a Casa vai suspirar na expectativa da competência e da eloquência que todos reconhecem em você. Vão estimulá-lo a se revelar e, então, você disporá da atenção da Câmara e será um dos seus prediletos.”

“Longe de tê-lo prejudicado, aquele começo lamentável fez com que ele adquirisse o prestígio que se concede à vítima. Naquela assembleia extremamente sensível, em três semanas conquistou certa popularidade. Era corajoso, falava bem, demonstrava ter preciso conhecimento dos assuntos que abordava. ” Por que não?” – pensaram os gentlemen ingleses.

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Lupi, Lula, Brizola, Vargas, Ortega.

Acabei da assistir a Convenção Nacional do PDT, um partido que permanece sob o comando do Carlos Lupi e sob a inspiração de Brizola, Lula e Vargas.

Fui ao livro “Moreira Franco Política como destino” e encontrei a seguinte declaração sobre como ele encontrou o governo deixado pelo Brizola: “Para iniciar a conversa, a máquina administrativa do governo estava destroçada em toda sua ampla extensão, do Palácio Guanabara ao mais remoto centro de saúde de um pequeno distrito…

O governo Brizola foi um governo, nessa área de segurança, muito ruim. Foi uma catástrofe, o que havia de pior, era crise atrás de crise…

Administrativamente falando, eles nos entregaram a polícia em estado deplorável de organização e equipamentos. Não havia delegacia funcionando, nem carro, nem armamento. Nem papel havia para lavrar ocorrências. Ninguém nomeava um diretor de presídio se os presos não estivessem de acordo. Para ser nomeado, o diretor da cadeia tinha que ter a aprovação dos presos…”

Ainda hoje pagamos essa herança.

Lula compareceu à Convenção do PDT. Gastou tempo com elogios a si mesmo, elogios ao Brizola e a Getúlio Vargas.

Sobre Getúlio, cabe uma lembrança. Só houve, no Brasil, um período sem eleições e esse período foi o da ditadura Vargas. Hoje eu recebi a seguinte notícia: “Aqui (na Nicarágua) não haverá mais eleições para que eles (a oposição) não tentem tomar o governo, tomar o poder”,

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É uma missão impossível? Só depende de nós.  

Parte IV do livro Moreira Franco — Política como Destino, obra-prima concebida e organizada por Aspásia Camargo: “Missão impossível: como desenvolver o Estado do Rio?”

De fato, essa ainda é uma missão impossível — uma saga que começou em 1982, quando o povo do Estado do Rio de Janeiro escolheu o político Leonel de Moura Brizola para governá-lo.

Aspásia Camargo perguntou ao ex-governador Moreira Franco:

“Mas qual foi, afinal, a herança que você recebeu do governo Brizola?”

Moreira respondeu:

“Para iniciar a conversa, a máquina administrativa do governo estava destroçada em toda a sua ampla extensão, do Palácio Guanabara ao mais remoto centro de saúde de um pequeno distrito (…).”

Sobre a Segurança Pública, Moreira Franco disse:

“Brizola identificava a polícia como repressiva contra o povo e como uma herança do regime militar. A solução que ele adotou foi liberar geral, encarando o bandido como ‘bandido social’… 

E não foi só isso. A mesma visão ideológica justificou a delegação, a um colegiado de presidiários, da gestão dos presídios. Esse colegiado era eleito pelos próprios presos, que controlavam a administração das unidades prisionais… Em suma, quando assumi, o crime organizado já exercia liderança dentro e fora das prisões do Estado do Rio de Janeiro, com suas facções já presentes em diversos estados da Federação. A extensão e a profundidade de sua atuação tornavam difícil combatê-las.”

Ao tratar da herança deixada pelo governo Brizola na administração e nas finanças estaduais, Moreira reforça:

“Para iniciar a conversa, a máquina administrativa do governo estava destroçada em toda a sua ampla extensão, do Palácio Guanabara ao mais remoto centro de saúde de um pequeno distrito…”

O livro também traz o depoimento do advogado Jorge Hilário, que assumiu a Secretaria de Fazenda no governo Moreira Franco:

“Eu perguntei ao Moreira como ia ser a transição. Então pensei: ‘Vou procurar o César Maia’, porque ele era secretário, tinha sido deputado, e eu o conhecia vagamente… 

Eu estava crente de que ele ia me dar todas as informações possíveis e disponíveis. E aí ele colocou um pedaço de papel na minha mão, que dizia quanto era a arrecadação e algumas bobagens que qualquer um poderia saber, sem a informação do secretário. Então, quando assumimos a Secretaria de Fazenda, não tínhamos nenhuma informação, nenhum dado. Nada, nada…”

Ainda sobre a herança deixada por César Maia como secretário de Fazenda, Jorge Hilário relata:

“Pedi a lista de todos os fiscais para saber como eles trabalhavam, quais trabalhavam e quais não trabalhavam. Verifiquei que havia alguns fiscais que ficavam sempre em casa, que não iam à repartição… Verifiquei que um desses fiscais era Bené Nunes, o famoso pianista…”

Moreira arrumou a casa, cercando-se de secretários com excelentes currículos. Na eleição seguinte, porém, o povo devolveu o governo ao calamitoso Leonel Brizola. Depois dele, entregou-o a Marcello Alencar, outro brizolista; em seguida, a Garotinho, da mesma raiz, e a Rosinha, idem, que assumiu após um curto período da Benedita da Silva no governo, que conseguiu algo que parecia impossível: piorar um governo já tido como ruim. 

Chegou-se, então, a Sérgio Cabral, que dispensou comentários. Passamos por Wilson Witzel e Cláudio Castro. Agora, as pesquisas apresentam fortes indícios de que o povo poderá entregar o governo a mais um herdeiro do brizolismo — e que carrega o DNA político de Sérgio Cabral e as heranças malditas do Lula. 

Por isso, todo cuidado é pouco. 

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Qual a missão? Fazer barulho.

UNIÃO BRASIL, ora essa! PL, Partido Liberal? Sério mesmo?Um parece marca de açúcar e o outro conta uma mentira, pois de liberal nada tem, nem mesmo uma história digna, após a morte de Álvaro Valle.

A política brasileira parece ter desistido das ideias e apostado no marketing. Os partidos já não procuram traduzir uma identidade, uma tradição ou um conjunto de princípios. São nomes genéricos, vazios de significado.

Agora surgiu o partido Missão. Chegou ontem e já quer sentar na janela. Há risco de conseguir, porque o eleitor brasileiro está sempre disposto a uma nova aventura. Também, diante das opções que temos, não é difícil entender o motivo.

Mas voltemos ao União Brasil. Sabe de onde ele veio? Da fusão entre PSL e Democratas. E o Democratas nasceu da mudança de nome do PFL, partido ao qual me filiei em 1986, por convicção liberal. É nesse ponto que a minha irritação começa.

Minha ficha de filiação ao PFL foi abonada por Rubem Medina e Marco Antônio Maciel, minha referência liberal na juventude.

Marco Maciel completaria 86 anos no próximo dia 21. Rubem Medina faria 84 em 1º de setembro. Deus, talvez já de saco cheio da política brasileira, não tem permitido reposição.

Foram César Maia e Jorge Bornhausen que decidiram batizar o PFL como Democratas. Bornhausen está com 88 anos; Maia, com 81.

O cientista político Antônio Lavareda, especialista em pesquisas eleitorais, conta essa história em Emoções Ocultas:

“Avançando no processo de sua ‘refundação’, iniciado três anos antes, o Partido da Frente Liberal (PFL) — criado na conjuntura da transição para o governo civil por uma dissidência do Partido Democrático Social (PDS), que sucedera à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) — mudou seu nome para Democratas, denominação escolhida com base em pesquisas que fui convidado a coordenar. Mais importante, a mudança foi acompanhada pela renovação da sua direção, entregue a uma nova geração de líderes que não eram sequer nascidos à época do golpe militar de 1964.”

Renovação? Quem representou essa “renovação”? Os filhos de Maia, Bornhausen e Antônio Carlos Magalhães: Rodrigo Maia, Paulo Bornhausen e ACM Neto. Quando os meninos brigaram surgiu esse troço com nome de açúcar ou café, União Brasil.

Sinto saudades do PFL. Durante anos, li os Cadernos Liberais, idealizados por Marco Antônio Maciel e publicados pelo partido. Neles estavam a defesa da economia de mercado, de um Estado enxuto e institucionalmente forte, do federalismo, da reforma administrativa, da reforma política e da responsabilidade fiscal.

Foi no PFL que tive meus primeiros contatos com Merquior, Raymond Aron, Karl Popper e Alexis de Tocqueville.

Hoje, os partidos parecem empenhados em deseducar o eleitor, começando pelos próprios nomes. Avante. Solidariedade. Podemos. União Brasil. Avante para onde? Solidariedade com quem? Podemos o quê? E união em torno de quais princípios? Missão? Qual? Fazer barulho? Falar alto?

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“RAIOS TE PARTAM”

O dia mais feliz para os meus pais foi quando ingressei no Banco do Brasil. Pra mim, um dia qualquer. Isso em abril de 1975.

Comecei uma carreira e, por conta dela, meti-me de corpo inteiro no Estado brasileiro, para exercer funções diversas no próprio banco e em algumas estruturas dos ministérios. Suportei isso até abril de 1999, quando sai do Banco do Brasil antes de completar o tempo necessário para uma aposentadoria privilegiada. Sai com arranhões.

Poucos personagens representam o Estado Brasileiro melhor que o cão Cérbero, filho de Tifão e Equidna, duas das criaturas aterrorizantes da Antiguidade. Cérbero é o guardião dos portões do inferno. Ele tem 3 cabeças, serpentes espalhadas pelo corpo, uma cauda de dragão e uma missão específica: impedir que alguém escape do Hades.

Cérbero não impede a entrada. A função dele é impedir a saída, sem que se morra novamente.

Entrar no Estado Brasileiro é fácil. Cargos, estabilidade, influência, prestígio, orçamento, privilégios e a possibilidade de fazer política exercem um fascínio irresistível.

Cérbero recebe a todos com festa, abanando o rabo. Mas, ao tentar sair, todos descobrem a fera encarnada no cão, pois o sistema reage com investigações seletivas, isolamento político, campanhas de difamação, processos administrativos, perseguições e destruição de reputações.

Sair tem um custo, o maior deles é ser comparado com os ladrões.

Essa é a maior perversidade das grandes burocracias, estimulada pela gula dos ladrões, que fazem com que o Estado deixe de servir ao cidadão para trabalhar exclusivamente para seus agentes.

A imagem das três cabeças de Cérbero simboliza a burocracia que dificulta, a política que negocia e as corporações que defendem seus próprios interesses em detrimento dos desejos da sociedade. Posso também vê-las como os três Poderes da República — essa desgraçada República presidencialista brasileira.

Apenas três personagens mitológicos conseguiram superar Cérbero.

Hércules o venceu pela força extraordinária; Orfeu, pela inteligência e arte e Psiquê utilizou estratégia e a paciência, pois os monstros raramente são derrotados pela improvisação, como essa a que a gente assiste neste ano eleitoral e tem visto desde a eleição de 2018.

Para vencer o Estado é preciso, portanto, coragem, inteligência e persistência, qualidades presentes apenas nos líderes. Então, o desafio do povo brasileiro é encontrar novos líderes, uma tarefa que os partidos políticos buscam, por todos os meios, impedir.

O ex-senador Marco Maciel, esse sim um líder liberal, contou no livro “Ideias Liberais e Realidade Brasileira”: “Numa de suas visitas ao Brasil, o conhecido cientista político, professor Maurice Duverger, declarou não duvidar do grande futuro do nosso país, mas lembrava – e aqui cito suas próprias palavras – que o Brasil só será uma grande democracia no dia em que tiver um forte e estável sistema partidário”.

Nada mais certo. Mas, como fazer isso? Você sabe?