
“A Arte da Entrevista”.
“A Arte da Entrevista – Uma antologia de 1823 aos nossos dias”, é uma coletânea organizada pelo jornalista Fábio Altman. Uma obra preciosa.
Ele contém Nela entrevistas com José Bonifácio de Andrada e Silva, Mark Twain, Greta Garbo, Freud, Al Capone, Adolf Hitler, Mussolini, Caetano Veloso, Pedro Collor, Cabo Anselmo, Glauber Rocha, Fidel Castro e outros bons e maus-caráteres.
Destaco, por agora, a entrevista com Robert Louis Stevenson, autor de O Médico e o Monstro, concedida por ele ao The New York Herald, no dia 8 de setembro de 1887, no momento da sua chegada em Nova York.
Stevenson explica que viajou para tratar da saúde debilitada pela tuberculose. Apesar de gostar muito de Nova York, ele desejava, naquele momento, sair rapidamente da cidade e refugiar-se no campo.
Perguntado sobre a inspiração para criar as histórias que criou, Stevenson contou que muitas vezes encontrava ideias literárias durante os sonhos. Para ele, o sonho e a criação consciente se misturavam. Dormindo ele construía narrativas.
Algumas histórias apareciam nos pesadelos intensos que o faziam acordar gritando. Ele, então, levantava-se da cama e começava a trabalhar.
Foi assim com a criação de O Médico e o Monstro. Stevenson sonhou com um homem acuado que toma uma droga e se transforma em outro ser. Ao despertar, percebeu imediatamente que havia encontrado o elemento que procurava há tempos. O sonho forneceu o núcleo da ideia; depois, porém, a história precisou ser conscientemente desenvolvida e escrita.
“O mais estranho é que eu sempre sonho com histórias. Há algum tempo, eu também sonhei com a história de Olalla, incluída no meu livro The Merry Man e, no momento, tenho duas histórias ainda não escritas com as quais também sonhei(…). Tudo o que eu sonhei sobre o doutor Jekyll foi que um homem estava imprensado dentro de um armário, quando engoliu uma droga e se transformou em um outro ser”.
Jekyll e Hyde são as duas faces do protagonista de O Médico e o Monstro. É um livro curto, extraordinariamente influente: transformou os nomes “Jekyll e Hyde” numa expressão usada até hoje para descrever alguém que parece possuir personalidades radicalmente contrastantes.
Quem são Jekyll e Hyde?
O Dr. Henry Jekyll é um médico respeitado, culto e socialmente admirado na Londres vitoriana. Entretanto, percebe dentro de si desejos e impulsos incompatíveis com a imagem pública que construiu.
Ele passa a acreditar que o ser humano não constitui uma unidade moral simples. Dentro de uma mesma pessoa convivem tendências contraditórias — aquilo que consideramos bem e mal, civilização e instinto, autocontrole e desejo.
Jekyll então desenvolve uma substância química capaz de separar essas dimensões. Quando a ingere, transforma-se em Edward Hyde.
Hyde é fisicamente diferente e, sobretudo, moralmente diferente. Ele pode realizar aquilo que Jekyll reprime sem comprometer a reputação do respeitável médico.
No início, isso parece oferecer a Jekyll uma solução perfeita: ser virtuoso como Jekyll e entregar-se aos impulsos como Hyde.
Mas aí está a tragédia. O verdadeiro problema de Jekyll, que acredita ser possível separar o bem do mal e controlar quando cada personalidade aparecerá. Aos poucos, porém, Hyde se fortalece.
As transformações passam a acontecer espontaneamente. Jekyll já não precisa tomar a substância para se tornar Hyde. Aquilo que inicialmente parecia libertação converte-se em escravidão.
E há uma sutileza importante: Hyde não é simplesmente outra pessoa que apareceu dentro de Jekyll. Ele é uma manifestação de aspectos do próprio Jekyll. Por isso, uma das leituras mais interessantes do livro não é:
“Existem duas pessoas dentro de cada ser humano.”
Jekyll quer praticar determinados atos sem deixar de considerar-se um homem respeitável. Ele pretende conservar a virtude de Jekyll enquanto transfere a culpa para Hyde.
Stevenson mostra que essa separação é impossível.
O livro pode ser lido como crítica à hipocrisia social da Inglaterra vitoriana. Havia forte valorização pública da respeitabilidade, disciplina, religião e moralidade, acompanhada de uma vida privada que nem sempre correspondia a esses padrões.
Jekyll representa precisamente essa tensão: o homem socialmente respeitável que esconde aquilo que não pode admitir publicamente — e talvez nem para si próprio.
É por isso que Hyde provoca uma repulsa quase instintiva nas outras personagens. Stevenson não precisa descrevê-lo como um monstro convencional. Há alguma coisa nele que parece profundamente errada.
E há uma ideia ainda mais profunda
No imaginário popular, Jekyll tornou-se o “bom” e Hyde, o “mau”. O romance é mais sofisticado.
Jekyll não é inteiramente bom. É ele quem deseja Hyde e cria a fórmula.
Jekyll acredita que pode satisfazer seus desejos sem assumir integralmente a responsabilidade por eles.
Esse é talvez o aspecto mais moderno do livro: o perigo não está simplesmente em termos um “Hyde” dentro de nós; está em acreditarmos que podemos libertá-lo sem pagar o preço por aquilo que ele faz.
É justamente essa questão — responsabilidade, desejo, repressão e identidade — que faz O Médico e o Monstro continuar mais interessante do que a simples história de um cientista que se transforma num monstro.
Estou autorizado a transformar “Jekyll” em um político em campanha. “Hyde”, em um político no exercício do mandato e o voto na fórmula mágica.
É por ler desse modo a política que gente de bem a abandona.








