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Partidos sem ideias.

Todos os candidatos às eleições deste ano estão escolhidos e anunciados, mas nenhum partido realizou convenção com esse propósito. Está provado, portanto, que os partidos têm dono e não filiados e estão distantes do modelo de uma democracia, a mesma que seus líderes pregam. 

O Brasil transformou o multipartidarismo em um fim em si mesmo — e, nesse processo, esvaziou boa parte do sentido da política. Em vez de ampliar a representação, a proliferação de partidos produziu um sistema confuso e irresponsável.

Não nego a importância da pluralidade, pois reconheço que as sociedades complexas demandam diversidade de vozes. O problema é que, no caso brasileiro, essa diversidade foi capturada por uma lógica de fragmentação oportunista. Os partidos surgem, fundem-se, rebatizam-se e negociam posições com uma fluidez que nada tem a ver com convicção programática e sim com a sobrevivência institucional.

O resultado é um eleitor desorientado. 

Diante de dezenas de siglas, muitas indistinguíveis entre si, votar deixa de ser uma escolha clara entre projetos e passa a ser um exercício de tentativa e erro. Mais grave: depois da eleição, a própria lógica do sistema embaralha qualquer possibilidade de fiscalização do eleitor. 

Os partidos políticos no mundo democrático têm o papel de filtro. Por aqui, de jeito algum. Qualquer um com o mínimo de projeção de votos, tem a segurança do registro para concorrer. Quando algo dá errado, ninguém é culpado. Quando algo dá certo, todos reivindicam o mérito. 

Partidos que compõem a base governista, sem escrúpulo algum, votam contra o governo; partidos de oposição negociam cargos; os aliados de ontem tornam-se adversários de hoje — e vice-versa. Nesse ambiente, a política deixa de ser um espaço de disputa programática e passa a funcionar como um mercado de posições.

A consequência é previsível: baixa confiança, alta instabilidade e uma sensação difusa de que o sistema não responde ao cidadão. E não responde mesmo. 

Sistemas com menos partidos — ainda que imperfeitos — tendem a oferecer algo que o Brasil perdeu: nitidez. Quem governa é identificável. Quem faz oposição também. A vitória define o governo, a derrota, a oposição e desse modo, todos os eleitores têm posição assegurada na representação política. A política deixa de ser um jogo de sobrevivência difusa e passa a ser uma disputa concreta por confiança.

No Brasil a multiplicidade de partidos virou álibi, para a incoerência, para o fisiologismo e para a ausência de compromisso com projetos de longo prazo. Defender a redução da fragmentação partidária é tentar resgatar um princípio básico da democracia: a clareza. 

Enquanto o sistema continuar operando como um labirinto de siglas e interesses cruzados,o Brasil seguirá preso a uma política que confunde mais do que representa — e que se protege mais do que se reforma.

Pauto-me pelo liberal convertido Karl Popper que, com autoridade firmada na experiência e na formação acadêmica, afirmava serem os sistemas multipartidários, diluidores de responsabilidades e reformas…

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A arrogância tira as salvaguardas. 

Ricardo Vorcaro, Carlos Ghosn e Eike Batista: três nomes, três histórias diferentes — e um ponto em comum: uma ascensão rápida, quase meteórica, seguida por uma queda abrupta.

Durante muito tempo, os três caras foram vistos como exemplos de sucesso e conseguiram juntar bajuladores. E como! 

Ghosn, o executivo que salvou a Nissan; Eike, o rosto do “Brasil que dá certo” e Vorcaro, o cara que colocou o mercado financeiro e a política para trabalharem juntos por ele e para ele. 

Mas, houve o momento da virada. O que antes parecia ousadia e visão estratégica passa a ser visto sob outra lente — a da investigação. O que parecia inovação revela excesso, improviso e arrogância. 

Os casos, em resumo:

Carlos Ghosn foi preso no Japão, em 2018, por fraude fiscal e uso indevido de recursos da empresa. Ele afirma ter sido vítima de uma conspiração corporativa.

Eike Batista foi capturado pela Lava Jato, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e manipulação de mercado. Sua defesa aponta para um ambiente político que exigia contrapartidas para grandes negócios.

Ricardo Vorcaro…bem, esse é um caso recente, a bola da vez, o escândalo do momento. Ele entrou no radar das autoridades por operações financeiras irregulares, em um campo onde a linha entre estratégia agressiva e ilegalidade nem sempre é clara.

O que aproxima esses casos?

Além das investigações, há um elemento simbólico importante: o estilo de vida. O luxo, o culto à personalidade, a visibilidade excessiva como proteção e proximidade com o poder. Um monte de puxa-sacos e malandros. Casas, carros, viagens, influência. Tudo isso ajuda a construir a imagem de sucesso — mas também amplifica a queda quando ela vem.

O que cada caso representa:

Ghosn mostra os riscos e conflitos da governança em empresas globais; Eike ilustra o colapso de expectativas aliado à mistura perigosa entre negócios e política e Vorcaro evidencia o ditado: “malandro demais se atrapalha”. 

A lição que fica

Carisma, sucesso e poder não são blindagem. Em muitos casos, são justamente o que torna a queda mais visível, mais dolorida e rápida. 

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Eleições em Portugal.

Portugal adota um modelo de governo conhecido como semipresidencialismo, uma estrutura que combina elementos do presidencialismo e do parlamentarismo. Nesse sistema, o poder político é compartilhado entre duas figuras centrais: o Presidente da República e o Primeiro-Ministro.

O Presidente é eleito diretamente pelo povo e exerce funções de chefe de Estado, com papel relevante na mediação institucional e na garantia do funcionamento democrático. Já o Primeiro-Ministro, que atua como chefe de governo, é nomeado pelo Presidente, geralmente sendo o líder do partido ou coalizão com maioria no Parlamento.

O país realiza cinco tipos de eleições, sendo as mais importantes as presidenciais, realizadas a cada cinco anos, e as legislativas, que ocorrem a cada quatro anos. O Parlamento português — a Assembleia da República — é unicameral, composto por 230 deputados. Diferentemente de outros sistemas, não há Senado, o que simplifica o processo legislativo.

O direito ao voto é garantido a todos os cidadãos a partir dos 18 anos. O voto é secreto e facultativo, ou seja, não há obrigatoriedade de participação. A votação é feita por meio de cédulas de papel, e a apuração costuma ser rápida, com resultados divulgados ainda no mesmo dia.

Portugal é frequentemente citado como um exemplo de democracia consolidada. Suas instituições são consideradas estáveis e confiáveis, e não há, nos últimos anos, questionamentos relevantes sobre a legitimidade dos processos eleitorais. Esse ambiente de confiança contribui para a previsibilidade política e a estabilidade institucional.

Quando comparado ao Brasil, algumas diferenças se destacam. Portugal mantém o voto em papel, enquanto o Brasil utiliza urnas eletrônicas. Especialistas apontam que o modelo português funciona bem devido à menor escala do eleitorado e a uma realidade social mais homogênea. Já no Brasil, a adoção das urnas eletrônicas está associada à necessidade de lidar com um eleitorado muito maior e com profundas desigualdades regionais.

Apesar da solidez do sistema atual, há discussões sobre possíveis inovações. Entre elas, destaca-se o debate sobre a implementação do voto digital ou online, que permitiria aos cidadãos votar remotamente — uma ideia ainda em fase de estudo e sem aplicação prática.

Mais do que um procedimento formal, o voto em Portugal é amplamente reconhecido como um instrumento de liberdade, participação política e inclusão social, especialmente para grupos historicamente marginalizados.

Em síntese, Portugal apresenta um sistema político e eleitoral marcado pela simplicidade operacional, confiança institucional e tradição democrática. Ao mesmo tempo, mantém-se atento às transformações tecnológicas, discutindo caminhos para modernização sem comprometer a segurança e a credibilidade do processo eleitoral.

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Chile. Eleições.

Chile: Geografia Singular e Democracia de Funcionamento Ágil

O Chile é um país que se destaca não apenas por sua organização institucional, mas também por características geográficas únicas. Em seu território está o Deserto do Atacama, considerado o mais seco do mundo, um ambiente extremo que simboliza a diversidade natural chilena. 

O país abriga uma grande quantidade de vulcões ativos — uma realidade bem distinta da brasileira. Sua capital, Santiago, concentra o dinamismo econômico e urbano, sendo sede da Gran Torre Santiago, com cerca de 300 metros de altura, o edifício mais alto da América Latina.

O Chile apresenta um sistema eleitoral que combina simplicidade, transparência e eficiência. O direito ao voto é garantido por meio de inscrição automática para todos os cidadãos maiores de 18 anos. 

O voto é facultativo. 

A votação é realizada por meio de cédulas de papel, organizadas por cores de acordo com o cargo em disputa. Após o preenchimento, as cédulas são dobradas e depositadas em urnas transparentes, o que reforça a percepção de controle público e fiscalização direta. 

Todo o processo é administrado por um sistema institucional composto pelo Serviço Eleitoral do Chile (SERVEL) e por tribunais eleitorais em nível nacional e regional, com fiscalização exercida tanto por partidos políticos quanto pela Justiça Eleitoral.

O Chile é presidencialista. O presidente da República é eleito para um mandato de quatro anos, sem possibilidade de reeleição consecutiva. Não existe o cargo de vice-presidente. 

O Poder Legislativo é bicameral, formado por 155 deputados, com mandatos de quatro anos, e 43 senadores, que exercem mandatos de até oito anos, com renovação parcial. 

Não existe título de eleitor. Além disso, o sistema eleitoral chileno contempla mecanismos de democracia direta, como plebiscitos — instrumento recentemente utilizado no debate sobre a elaboração de uma nova Constituição.

Apesar do uso de cédulas de papel, a apuração dos votos é notavelmente rápida. O processo ocorre de forma descentralizada, com contagem regional, sem depender exclusivamente da capital, o que contribui para a agilidade na divulgação dos resultados.

Na pandemia de COVID-19, as eleições foram adiadas e realizadas em dois dias para garantir maior segurança sanitária. O pleito foi histórico: pela primeira vez, foram eleitos governadores regionais e definidos os membros responsáveis pela elaboração de uma nova Constituição. Ainda assim, o resultado foi conhecido cerca de duas horas após o encerramento da votação.

Em síntese, o Chile apresenta um modelo eleitoral que alia o uso do voto em papel à eficiência operacional. 

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Urnas eletrônicas no mundo.

Cerca de 25 países utilizam o sistema eletrônico de votação, incluindo países como Estados Unidos, França, Bélgica, Peru e Argentina. Portanto, é um sistema bastante difundido. É verdade, porém, que a maioria desses países o utiliza apenas parcialmente. Ainda assim, países como Omã, Venezuela e Butão, assim como o Brasil, utilizam o sistema eletrônico em 100% do eleitorado.

Também há dados sobre o voto pela internet. O voto online acessível a todos os eleitores existe apenas na Estônia, um país báltico europeu muito avançado em tecnologias de identificação digital. Lá, todos os eleitores estão habilitados a votar online. Ainda assim, essa modalidade não é a mais utilizada: na eleição presidencial de 2015, cerca de 30% dos estonianos votaram pela internet. O voto presencial, portanto, ainda predomina.

Além disso, há cerca de 10 países que utilizam algum tipo de votação online para grupos específicos de eleitores, não para toda a população, mas de forma progressiva.

A forma como as eleições acontecem em cada país reflete muito sua cultura e realidade. Há casos curiosos. Na Gâmbia, por exemplo, as eleições são realizadas com tambores que representam os candidatos: os eleitores depositam bolinhas de gude em cada tambor, e o som produzido ajuda a evitar votos múltiplos. Ao final, as bolinhas são contadas.

No Equador, onde houve eleições recentemente, filas e locais de votação são separados por gênero — homens e mulheres. Essa medida é vista como uma conquista importante para reduzir pressões e garantir mais segurança às eleitoras.

Na Índia, nenhuma urna pode estar a mais de dois quilômetros do eleitor. Por isso, há casos em que equipes utilizam elefantes para levar urnas a regiões de difícil acesso.

Outro exemplo interessante é o dos astronautas norte-americanos, que podem votar mesmo estando em estações espaciais, por meio de votação online. Nos Estados Unidos, esse tipo de votação também é utilizado por militares e pessoas em locais de difícil acesso.

No México, em alguns casos, urnas são instaladas em garagens de cidadãos autorizados, quando não há escolas ou espaços públicos disponíveis para funcionar como seção eleitoral.

Quanto aos maiores processos eleitorais do mundo, a Índia é, de longe, o maior, com mais de 600 milhões de eleitores participando das eleições. Em seguida vêm Estados Unidos e Indonésia, com cerca de 160 milhões de votos. O Brasil também está entre os maiores: nas eleições municipais de 2020, houve cerca de 110 a 115 milhões de votos, com quase 150 milhões de eleitores registrados.

Existe algum país que ainda proíbe o voto feminino? O último foi a Arábia Saudita, que passou a permitir o voto das mulheres em 2015. Hoje, todos os países permitem, com exceção de um caso peculiar: o Vaticano. Lá, a única eleição é a escolha do Papa, feita pelo colégio de cardeais — e, como mulheres não podem ser cardeais na Igreja Católica, não participam desse processo.

E quantos países possuem uma justiça eleitoral própria? Estima-se que entre 25 e 30 países tenham instituições específicas para lidar com questões eleitorais.

Sobre a apuração dos votos, cerca de 20 a 25 países divulgam resultados no mesmo dia da eleição, ainda que de forma provisória — geralmente aqueles com maior uso de tecnologia eletrônica. Em muitos outros casos, o processo pode levar semanas.

Por fim, como o processo eleitoral contribui para a integração entre os países?

 Isso ocorre de duas formas. Primeiro, pela cooperação entre instituições eleitorais — como o TSE brasileiro, que desenvolve projetos e parcerias com diversos países. Segundo, de maneira mais ampla, pelo fortalecimento da democracia e da participação política, que cria experiências e valores comuns entre os povos, aproximando tanto autoridades quanto cidadãos.

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Eleições na Índia

A Maior Democracia do Mundo em Funcionamento

A Índia ocupa hoje uma posição singular no cenário global: tornou-se o país mais populoso do planeta, ultrapassando recentemente a China, com mais de 1,4 bilhão de habitantes. Trata-se de uma nação marcada por uma diversidade impressionante — são mais de 20 línguas oficiais e centenas de dialetos, refletindo a complexidade cultural de seu território.

Essa pluralidade se manifesta também no campo político. Aproximadamente 900 milhões de eleitores participam dos processos eleitorais indianos, números que, por si só, já dimensionam o desafio democrático enfrentado pelo país. 

Em 2019, a Índia realizou a maior eleição da história da humanidade: foram 879 milhões de eleitores aptos e mais de 1,6 milhão de urnas eletrônicas utilizadas.

O voto é facultativo e permitido a partir dos 18 anos. O sistema de votação utiliza urnas eletrônicas (EVMs) simples, com botões associados a símbolos dos partidos — um recurso essencial para incluir eleitores analfabetos. Há ainda a opção do botão NOTA (None of the Above), equivalente ao voto em branco. Após votar, cada eleitor recebe uma marca de tinta no dedo, um método eficaz e tradicional para evitar fraudes.

A logística eleitoral indiana é, por si só, um feito extraordinário. As urnas são transportadas por todos os meios imagináveis: carros, aviões, helicópteros, além de elefantes, camelos e equipes que seguem a pé por regiões montanhosas. Existe uma regra clara: deve haver uma seção eleitoral a no máximo 2 quilômetros de cada eleitor. Devido à dimensão do país, as eleições ocorrem em várias fases — geralmente sete — distribuídas ao longo de semanas.

Do ponto de vista institucional, a Índia é uma república parlamentarista. O presidente exerce a função de chefe de Estado, com papel predominantemente simbólico, enquanto o primeiro-ministro é o chefe de governo e detém o poder executivo real.

O Parlamento indiano é bicameral. A Lok Sabha (Câmara Baixa) possui 543 membros eleitos diretamente, com mandatos de cinco anos. Já a Rajya Sabha (Câmara Alta) pode ter até 250 membros, sendo parte eleita indiretamente e parte indicada, com mandatos de seis anos e renovação parcial.

O processo eleitoral pode se estender por cerca de 40 dias. Durante esse período, as urnas permanecem lacradas até que todas as fases sejam concluídas, quando então ocorre a apuração geral. Além disso, há a possibilidade de voto pelos Correios para grupos específicos, e eleições acontecem com frequência em níveis nacional e regional.

Como em outras democracias contemporâneas, a Índia também enfrenta desafios, como a disseminação de desinformação nas redes sociais. Ainda assim, o país consegue manter um sistema eleitoral funcional em uma escala sem precedentes.

A combinação de dimensão populacional, complexidade logística e esforços de inclusão social faz da Índia um caso singular: uma democracia que opera em condições extremas, mas que, ainda assim, se sustenta como a maior experiência democrática em funcionamento no mundo.

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Durante pelo menos 20 anos, considerado o período de 1951 a 2023 (72 anos), a presença de mulheres entre os deputados federais foi residual, como mostra o site da Câmara dos Deputados.

Da 39ª legislatura, com apenas uma deputada eleita, Ivette Vargas, pelo (PTB-SP), chegamos à 57ª, com 91 mulheres eleitas.

A mudança do quadro começou na redemocratização com a Constituição de 1988.

O salto da 47ª para a 48ª legislatura — de 8 para 29 deputadas — portanto, não foi coincidência, mas resultado direto da abertura do sistema político.

A Lei de Cotas de 1997 introduziu a obrigatoriedade. Ainda que inicialmente limitada em eficácia, ela estabeleceu um princípio fundamental — o de que a sub-representação feminina não é um problema natural, mas um desequilíbrio corrigível por desenho institucional.

O crescimento da 51ª para a 52ª legislatura (de 39 para 52 deputadas) reflete esse movimento. O salto de 77 deputadas federais eleitas para 91 na atual legislatura (57ª) revela que a representação política não muda por inércia.

No caso, ela é o resultado de uma nova Constituição, da regulamentação das cotas e do financiamento público das campanhas com a obrigação de uma parte dele ser destinada às candidaturas de mulheres.

A pressão social por diversidade também contribuiu para o aumento da representação feminina. Para partidos e estrategistas, a implicação é direta. Ignorar ou subestimar candidaturas femininas não é apenas um erro de leitura social; é um erro de cálculo eleitoral.

O eleitorado brasileiro já sinaliza que diversidade não é acessório — é critério de escolha do eleitor. Em um ambiente cada vez mais competitivo, formar, financiar e posicionar lideranças femininas deixou de ser agenda de inclusão para se tornar estratégia de vitória.

Superada a barreira da entrada, a disputa se desloca para o exercício efetivo do poder. A próxima fronteira não é apenas eleger mais mulheres, mas ampliar sua presença em posições de liderança, nas decisões centrais e nas agendas estruturantes do país. Vamos às urnas.

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Sistema Político da Austrália.

A Austrália é uma monarquia constitucional parlamentarista, um modelo político que combina a tradição monárquica com a prática democrática moderna. Nesse arranjo institucional, o chefe de Estado é o monarca do Reino Unido — atualmente o rei Charles III —, que exerce funções sobretudo simbólicas. No território australiano, ele é representado pelo governador-geral, figura que atua formalmente em nome da Coroa, mas dentro dos limites definidos pela Constituição e pelas convenções democráticas.

Na prática, quem governa é o primeiro-ministro, líder do partido ou da coalizão que detém maioria na Câmara dos Representantes. É ele quem conduz o governo, define políticas públicas e lidera o Executivo.

Estrutura do Parlamento e eleições

O Parlamento federal australiano é bicameral, composto por duas casas:

  • Senado: formado por 76 senadores, com mandatos de seis anos. A renovação ocorre parcialmente a cada três anos, garantindo continuidade institucional.
  • Câmara dos Representantes: composta por 151 deputados, com mandatos de até três anos.

Diferentemente de sistemas presidencialistas, o primeiro-ministro não é eleito diretamente pelo povo. Os eleitores votam em candidatos locais para o Parlamento, e o líder da maioria parlamentar assume o cargo de chefe de governo. Esse modelo permite uma característica importante do parlamentarismo: o partido pode substituir seu líder — e, consequentemente, o primeiro-ministro — sem necessidade de uma nova eleição geral. Esse tipo de mudança interna já ocorreu diversas vezes na política australiana.

O voto de desconfiança

Um elemento central dos regimes parlamentaristas é o chamado voto de desconfiança. Ele ocorre quando o Parlamento deixa de apoiar o governo em exercício. As consequências podem variar:

  • queda do governo;
  • formação de um novo governo dentro do Parlamento;
  • convocação de novas eleições.

Esse mecanismo funciona como um instrumento de controle político, permitindo ajustes institucionais sem a rigidez de mandatos fixos.

Organização nos estados

A Austrália é uma federação, e seus estados também seguem modelos semelhantes, com adaptações. Cada estado possui um governador, que representa o monarca, mas o poder executivo é exercido por um premier, equivalente a um “primeiro-ministro estadual”. Apesar das semelhanças, o funcionamento político nos estados não é idêntico ao do nível federal, havendo variações nas práticas e dinâmicas locais.

Sistema de votação

O voto na Austrália é obrigatório, o que contribui para altos níveis de participação eleitoral. No entanto, há equívocos comuns sobre o funcionamento do sistema:

  • A maioria dos eleitores vota presencialmente.
  • Existe a possibilidade de voto por correio, mas ele não é automático nem universal.
  • As cédulas não são enviadas previamente preenchidas para os eleitores.

O sistema busca equilibrar acessibilidade e integridade, permitindo diferentes formas de votação sem comprometer a segurança.

Segurança e apuração

As eleições são organizadas por uma instituição independente, a Australian Electoral Commission. Esse órgão é responsável por garantir a lisura do processo eleitoral, desde o registro de eleitores até a apuração dos votos. Em geral, os resultados são apurados com rapidez, normalmente entre um e três dias.

Comparação com o Brasil

Embora os sistemas políticos sejam distintos, há um ponto de convergência relevante entre Austrália e Brasil: a valorização de instituições eleitorais independentes. No caso brasileiro, a Justiça Eleitoral — criada no contexto histórico posterior à chamada política do “café com leite” — desempenha papel semelhante ao assegurar credibilidade e organização ao processo eleitoral.

Conclusão

O sistema político australiano combina estabilidade institucional com flexibilidade política. Como monarquia parlamentarista, permite mudanças de liderança sem crises profundas, mantendo o funcionamento democrático. Ao mesmo tempo, reforça a importância de órgãos independentes e de regras claras para assegurar eleições confiáveis.

Em síntese:

  • A Austrália é uma monarquia constitucional parlamentarista;
  • O primeiro-ministro pode ser substituído sem eleição geral;
  • O Parlamento é bicameral, com funções bem definidas;
  • O eleitor não escolhe diretamente o chefe de governo;
  • O sistema estadual possui semelhanças, mas não é idêntico ao federal;
  • O voto por correio existe, mas não é a regra geral.

Trata-se de um modelo que ilustra como tradição e modernidade podem coexistir em um arranjo institucional eficiente e estável.

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Os Cemitérios Estão Cheios de “Insubstituíveis

”.

Vargas já se considerou insubstituível. Brizola também. Ulysses Guimarães mais ainda e Tancredo Neves, esse então…

“Os cemitérios estão cheios de homens insubstituíveis.” A frase de Antoine de Rivarol atinge um ponto sensível da natureza humana: a ilusão da indispensabilidade.

O debate político nacional tem girado de forma obsessiva, em torno de duas figuras: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, mesmo quando eles, presos, não podem comparecer à disputa. Em 2018, Haddad substituiu Lula. Este ano, Flávio cumprirá a mesma sina em nome do pai.

Ambos são cercados por narrativas que os colocam como peças únicas, quase inevitáveis no tabuleiro político. Mas a pergunta que se impõe é simples e desconfortável: serão eles realmente insubstituíveis?

A história diz que não.

Nenhum líder, por mais popular, carismático ou polarizador que seja, escapa à lógica do tempo. Impérios foram construídos e desmoronaram; líderes considerados indispensáveis desapareceram, e o mundo seguiu adiante — às vezes melhor, às vezes pior, mas sempre em movimento.

A política, em especial, é um terreno onde a substituição não é exceção: é regra.

Lula e Bolsonaro tornaram-se símbolos de visões de mundo opostas, mas também de uma dependência estrutural: a ideia de que sem eles não há futuro.

Esse fenômeno é apenas fruto de um conforto psicológico que leva alguns a acreditar em alguém capaz de “resolver tudo” — um salvador, um antagonista necessário, uma referência fixa em meio ao caos.

Essa dinâmica alimenta a polarização e empobrece o espaço político, reduzindo a complexidade do país a uma disputa binária.

A realidade é dura e mais madura do que isso.

Lula não é eterno. Bolsonaro também não. Seja pelo desgaste natural do poder, por limitações pessoais, ou simplesmente pelo avanço do tempo, ambos deixarão de ocupar o centro da política brasileira e quando isso acontecer, o país não desaparecerá. Alguns não verão o futuro, mas ele virá por bem ou por mal.

A verdadeira questão, portanto, não é se Lula e Bolsonaro são insubstituíveis. A questão é que o Brasil se comporta como se fossem.

O sentimento revela a fragilidade institucional, a carência de lideranças de verdade e a persistência de um sistema político que dificulta o surgimento de alternativas.

Se há algo que a frase de Rivarol nos lembra é que a história não se curva a indivíduos, por mais influentes que eles sejam. Ela os absorve, os substitui e segue em frente.

O Brasil, cedo ou tarde, fará o mesmo. Quanto mais cedo o povo brasileiro entender isso, maior será a chance de trocar a dependência de nomes pela força de ideias.

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Gabriel Galípolo deu o recado

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O Presidente do Banco Central prestou esclarecimentos à CPI do Crime Organizado. De tudo o que ele disse, a falta de estrutura técnica do Banco Central para cumprir o papel de fiscalizador, foi a notícia relevante.

“O senhor tem razão ao tocar nesse ponto, porque ele revela um problema estrutural importante. Hoje, o Banco Central do Brasil tem uma idiossincrasia institucional que nos limita.

Nós operamos com dois orçamentos: o monetário e o fiscal. E, no nosso caso, parte das atividades está em um, parte está em outro. Isso cria uma assimetria operacional relevante. Dependendo da atividade, temos capacidade de agir; em outras, enfrentamos restrições severas.

E isso impacta diretamente a nossa capacidade de fiscalização.

Só para dar um dado objetivo: nos últimos dez anos, o Banco Central perdeu quase um quarto do seu quadro — não para o mercado, mas por aposentadoria. Hoje temos cerca de 3 mil servidores.

Para efeito de comparação, o Federal Reserve tem cerca de 23 mil. O Banco Central da Índia, 13 mil.

E nós operamos um dos sistemas financeiros mais dinâmicos e complexos do mundo. Temos, por exemplo, o PIX, funcionando 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Depois dos eventos recentes, o Banco Central precisou desenvolver sistemas de alerta para movimentações atípicas — uma atribuição que, originalmente, seria das próprias instituições. Esses sistemas disparam alertas de madrugada, em fins de semana, e são atendidos por servidores movidos, essencialmente, por senso de responsabilidade. Não há adicional, não há estrutura proporcional à criticidade do trabalho.

Enquanto isso, o crime organizado investe pesado em tecnologia, todos os dias, para encontrar novas formas de burlar o sistema.
Se a gente olha para fora, o contraste é claro. Em muitos casos, no Brasil, um servidor acompanha até dez instituições. Em alguns países europeus, você tem 30 pessoas acompanhando uma única instituição.

E mais: o mundo está migrando rapidamente para supervisão baseada em tecnologia, especialmente inteligência artificial, porque quando você tem um sistema que movimenta trilhões por dia, não é realista imaginar que apenas mais pessoas vão resolver o problema.

Os principais bancos centrais do mundo já desenvolvem sistemas próprios, com alto nível de sigilo e sofisticação. O Brasil tem capacidade técnica para isso.
O que falta são condições institucionais”.

A folha de pagamento do BACEN aponta Gasto Anual de aproximadamente R$ 3,8 bilhões a R$ 4,2 bilhões. Esse valor engloba servidores ativos, inativos (aposentados) e pensionistas. É muito? É pouco?