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A campanha na teoria dos jogos.

1. Introdução

A Teoria dos Jogos procura compreender situações em que o resultado da decisão de uma pessoa depende também das escolhas feitas por outras.

Ela recebe esse nome porque organiza a realidade como um “jogo”, composto por:

  1. jogadores: pessoas, partidos, governos, empresas ou países;
  2. estratégias: as decisões disponíveis para cada jogador;
  3. ganhos e perdas: as consequências de cada combinação de escolhas;
  4. informações: aquilo que cada jogador sabe — ou acredita saber — sobre os demais.

Na política, os jogadores podem ser candidatos, partidos, parlamentares, governos, eleitores ou países. Cada um toma suas decisões tentando antecipar a reação dos outros.

A Teoria dos Jogos, portanto, é muito útil para responder a uma pergunta:

Se cada participante agir de acordo com os próprios interesses, quais resultados poderão surgir?

Mas ela não é uma bola de cristal. Ajuda a organizar o raciocínio, porém não elimina a imprevisibilidade da política e do comportamento humano.

2. Um exemplo simples: situação e oposição

Imaginemos que o governo apresente uma proposta considerada importante para o país. Governo e oposição possuem duas alternativas:

  1. cooperar, negociando um texto comum; b) confrontar, procurando derrotar e desgastar o adversário.

O jogo pode ser representado da seguinte maneira:

GovernooposiçãoResultado provável
CooperaCooperaAprovação negociada e benefício coletivo
CooperaConfrontaGoverno faz concessões, mas pode sair politicamente enfraquecido
ConfrontaCooperaOposição ajuda na aprovação, mas o governo fica com os méritos
ConfrontaConfrontaParalisia, radicalização e possível prejuízo para todos

O melhor resultado coletivo pode ser a cooperação. Entretanto, cada lado pode temer que o adversário use sua disposição para negociar como sinal de fraqueza. Por isso, mesmo quando a cooperação seria melhor para todos, os jogadores podem escolher o confronto. Essa situação se aproxima do conhecido Dilema do Prisioneiro: a busca individual por proteção ou vantagem pode produzir um resultado pior para o conjunto.

3. O que é o Equilíbrio de Nash?

O equilíbrio de Nash ocorre quando nenhum jogador tem interesse em mudar sozinho sua estratégia, considerando a escolha dos demais. Isso não significa que o resultado seja justo; eficiente; moralmente correto; bom para a sociedade; o melhor resultado possível. Significa apenas que, naquela situação, ninguém consegue melhorar o próprio resultado alterando sua decisão unilateralmente.

No exemplo político, governo e oposição podem permanecer no confronto porque nenhum dos dois deseja ser o primeiro a recuar. A paralisia pode, assim, transformar-se em equilíbrio e um equilíbrio pode ser estável e, ao mesmo tempo, ruim para todos.

Essa é uma das lições mais importantes da Teoria dos Jogos.

4. Por que a Teoria dos Jogos não é infalível?

4.1. A racionalidade humana é limitada

Os modelos mais simples costumam pressupor que os jogadores conhecem todas as alternativas; calculam corretamente os riscos; compreendem as consequências e procuram maximizar seus ganhos.

Na vida real, ninguém possui capacidade ilimitada de cálculo. As pessoas tomam decisões influenciadas por: emoções; crenças; informações incompletas; preconceitos; orgulho; medo; raiva; aversão à perda e necessidade de preservar a própria imagem.

Um candidato pode, por exemplo, recusar uma aliança eleitoral matematicamente vantajosa porque considera o acordo incompatível com sua história ou porque teme ser acusado de incoerência. (DENISE FROSSARD NA CAMPANHA DE 2006 É O MELHOR EXEMPLO)

A decisão pode parecer irracional para um observador, mas fará sentido para o político quando entram no cálculo sua identidade, sua reputação e seus compromissos anteriores.

4.2. Os ganhos não são facilmente calculáveis

Nos modelos, atribuímos valores aos resultados. Na política, entretanto, é difícil determinar o verdadeiro valor de cada alternativa.

O que vale mais para um partido? ocupar um ministério; eleger mais deputados; vencer a eleição presidencial; preservar sua identidade; manter o apoio de sua base ou preparar-se para a eleição seguinte? Cada jogador pode avaliar essas recompensas de forma diferente. Além disso, nem sempre revela suas verdadeiras preferências. Um partido pode anunciar que não deseja cargos, quando, na realidade, está aumentando o preço de sua participação na coalizão. Outro pode ameaçar abandonar o governo sem ter nenhuma intenção verdadeira de fazê-lo.

A estratégia depende, então, não apenas da realidade, mas também daquilo que cada jogador acredita a respeito dos demais.

4.3. A informação pode ser incompleta ou imperfeita

Existe informação incompleta quando um jogador desconhece características ou intenções do outro. Existe informação imperfeita quando ele não conhece todas as decisões anteriormente tomadas durante o jogo.

Na política, um presidente pode não saber: quantos parlamentares realmente votarão com o governo; se um partido cumprirá o acordo; se uma ameaça da oposição é verdadeira; como a opinião pública reagirá; se uma crise econômica mudará as prioridades dos eleitores Consequentemente, uma estratégia pode ser racional diante das informações disponíveis e revelar-se desastrosa quando aparecem fatos desconhecidos.

4.4. Pode haver mais de um equilíbrio

Um mesmo jogo pode apresentar diferentes Equilíbrios de Nash.

Em uma disputa eleitoral, por exemplo, dois partidos podem lançar candidatos próprios; formar uma aliança; apoiar um terceiro candidato ou desistir da disputa em troca de participação futura no governo. Mais de uma dessas combinações pode ser estável. A teoria identifica os resultados possíveis, mas nem sempre consegue determinar qual deles prevalecerá.

A escolha pode depender de: confiança pessoal; acontecimentos inesperados; convenções políticas; negociações reservadas; pressão dos eleitores; liderança e capacidade de comunicação. Portanto, a existência de um equilíbrio não significa que ele seja o único resultado possível.

4.5. Os jogadores cometem erros

As pessoas podem: votar no botão errado; interpretar mal uma declaração; divulgar uma informação antes da hora; confundir uma ameaça com uma decisão definitiva e/ou responder emocionalmente a uma provocação.

A própria Teoria dos Jogos desenvolveu o conceito de equilíbrio perfeito em mão trêmula, associado a Reinhard Selten, para considerar a possibilidade de pequenos erros na execução das estratégias. Isso exige uma correção no argumento inicial: o erro não está completamente fora da teoria. Ele pode ser incorporado aos modelos. O problema é que, no mundo real, não sabemos com precisão quais erros ocorrerão, com que frequência nem que consequências produzirão.

Na política, um comentário mal formulado pode romper uma aliança ou iniciar uma sequência de retaliações que nenhum dos participantes havia planejado.

5. Exemplo da política brasileira: o presidencialismo de coalizão

O Brasil possui um sistema presidencialista com representação proporcional; multipartidarismo; um Congresso com numerosos partidos e separação entre Executivo e Legislativo. O presidente é eleito diretamente, mas precisa do Congresso para aprovar leis, reformas, orçamento e outras medidas.

Surge, assim, o chamado presidencialismo de coalizão: para governar, o presidente normalmente precisa construir uma base parlamentar formada por diferentes partidos. O conceito foi consagrado na Ciência Política brasileira por Sérgio Abranches e continua sendo objeto de extensa pesquisa acadêmica. 

Podemos organizar esse processo como um jogo:

JogadorO que procura
PresidenteApoio para aprovar sua agenda
Partidos aliadosParticipação política, influência e atendimento de suas pautas
ParlamentaresRecursos, visibilidade, políticas para suas bases e reeleição
OposiçãoFiscalizar, impedir determinadas propostas e apresentar-se como alternativa
EleitoresRepresentação, políticas públicas e resultados concretos

O presidente pode calcular quantos votos precisa e quais partidos poderiam fornecê-los. Mas o cálculo matemático não é suficiente, pois um partido pode integrar formalmente o governo e não entregar todos os votos prometidos. Um parlamentar pode apoiar o governo em uma matéria e votar contra ele em outra. A opinião pública pode modificar o custo de uma aliança. Uma crise ou denúncia pode alterar subitamente o comportamento dos jogadores.

A Teoria dos Jogos ajuda a mapear os incentivos, mas não consegue prever perfeitamente: a fidelidade dos parlamentares; o surgimento de crises; a repercussão de uma decisão; o peso das relações pessoais e a mudança da opinião pública.

6. Um segundo exemplo: polarização eleitoral

Considere dois candidatos adversários. Cada um pode escolher entre: realizar uma campanha propositiva ou radicalizar o discurso e atacar o adversário.

Se ambos fizerem uma campanha propositiva, o eleitor poderá comparar programas. Contudo, cada candidato teme que o outro radicalize e mobilize mais intensamente sua base.

O resultado pode ser este:

  1. Um candidato aumenta o tom para não perder espaço.
  2. O adversário responde com intensidade maior.
  3. As bases passam a exigir novos ataques.
  4. Recuar passa a ser interpretado como fraqueza.
  5. Os dois ficam presos em uma escalada de radicalização.

A estratégia pode gerar engajamento eleitoral para cada lado, mas deteriorar o debate público. Temos novamente um resultado individualmente compreensível e coletivamente prejudicial.

Esse exemplo também mostra por que a política não pode ser explicada somente pela racionalidade econômica. Identidade, ressentimento, medo e pertencimento ao grupo entram no cálculo.

7. Teoria dos Jogos: previsão ou instrumento de análise?

A melhor forma de compreender a Teoria dos Jogos é tratá-la como uma bússola analítica, não como uma máquina de prever o futuro.

Ela permite:

  • identificar os jogadores;
  • compreender seus interesses;
  • organizar as estratégias disponíveis;
  • estimar reações;
  • localizar possibilidades de cooperação;
  • perceber situações de conflito;
  • descobrir como as regras modificam os incentivos.

Entretanto, sua capacidade de previsão depende da qualidade das premissas e das informações utilizadas.

Se atribuirmos aos jogadores interesses que eles não possuem, escondermos variáveis importantes ou presumirmos uma racionalidade inexistente, o modelo poderá ser matematicamente perfeito e politicamente equivocado.

8. Conclusão

A Teoria dos Jogos não afirma que os seres humanos são peças de um tabuleiro. Ela oferece uma linguagem para estudar decisões interdependentes: eu escolho considerando o que você poderá escolher, enquanto você faz exatamente o mesmo em relação a mim.

Na política, isso acontece permanentemente:

  • na formação de alianças;
  • nas votações parlamentares;
  • nas campanhas eleitorais;
  • nas negociações entre governo e oposição;
  • nas relações internacionais;
  • na distribuição do poder.

Sua grande virtude é mostrar que as decisões não acontecem isoladamente. Sua principal limitação é tentar representar, por meio de modelos, jogadores que carregam emoções, histórias, valores, informações incompletas e capacidade limitada de cálculo.

Por isso, a conclusão da aula pode ser resumida assim:

A Teoria dos Jogos não prevê infalivelmente o que as pessoas farão. Ela nos ajuda a compreender por que determinadas escolhas são possíveis, quais incentivos as sustentam e como decisões individualmente racionais podem produzir resultados coletivamente desastroso

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O Jeitinho Brasileiro.

O jeitinho brasileiro. 

Amarro o conceito de “jeitinho brasileiro”, à dificuldade que o povo tem em conviver com normas e formalidades. No Brasil, quando há leis, imediatamente, criam-se os antídotos, e o jeitinho é o melhor deles. 

O jeitinho localiza-se num campo de sombra, no ponto cego, entre a legalidade e a ilegalidade. Se puxado para um lado, o jeitinho é algo suportado; se puxado para outro, é ilegalidade e se esticado um pouco mais, pode até ser crime. Para que o jeitinho funcione bem sem dores de cabeça, o legislador brasileiro cria leis confusas e subjetivas o mais possível. Isso dá aos juízes o poder de interpretá-las com amplo campo de liberdade criativa. 

Por exemplo, há leis que proíbem mais de uma reeleição para os cargos executivos e punem o uso da máquina pública como instrumento financiador das campanhas.  Mas, o governador Cláudio Castro antecipou a própria sucessão, quando contribuiu com o desejo do Vice-Governador de ser Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Desse modo, ele abriu a possibilidade de ser sucedido interinamente pelo Presidente da Assembleia, em vários momentos e seis meses antes da próxima eleição, de forma definitiva. O deputado Rodrigo Bacelar poderá, portanto, disputar o governo, ocupando-o antecipadamente sem deixar de ter o comando da Assembleia Legislativa. O jeitinho brasileiro terá dado ao governo mais uma reeleição. 

Em Itaguaí, o Dr Rubão nem precisou usar o jeitinho. Ele cumpre o terceiro mandato consecutivo protegido por decisões judiciais, pois cumpriu um primeiro mandato em 2020 – mandato tampão; depois foi eleito para o segundo mandato e em 2024, disputou a eleição e foi eleito. Embora o resultado esteja sob o exame da Justiça Eleitoral, o Dr. Rubão foi autorizado a assumir o posto e nele aguardar o desfecho final. Ou seja, ainda que a Justiça, em última instância, decida que o Dr. Rubão não poderia exercer o terceiro mandato, ele já o terá exercido. 

“Assim caminha a humanidade” por aqui. 

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VITÓRIA DE PIRRO 

Jackson Vasconcelos – 6 de junho de 2025

“Se formos vitoriosos em mais uma batalha como essa, nós estaremos completamente arruinados”, disse o Rei Pyrrhus de Épiro após vencer os romanos em Ausculum e, na batalha, perder quase todos os seus homens. 

Carla Zambelli, a ré da vez, Daniel Silveira, Ramagem, Gilvan da Federal, Flor de Lis, Wilson Witzel, todos esses personagens surgiram na política nacional em 2018 agarrados ao capitão Jair Bolsonaro. Certamente outros e outras houve. Arolde de Oliveira, no Rio, e Major Olímpio, em São Paulo, com o apoio do capitão foram promovidos da Câmara para o Senado Federal, mas não exerceram os seus mandatos na íntegra, pois COVID-19 os pegou. Para compor o mesmo exército surgiu, na eleição de 2022, o general Braga Neto. 

Arolde de Oliveira, assim que eleito, escreveu e publicou um livro tido como manual de sucesso eleitoral, com um título que o destino desfigurou: “Deus Quis – eleições na era digital.” Quando o senador faleceu faltando-lhe ainda pouco mais da metade do mandato para exercer, autorizou-se a dúvida sobre qual a real vontade de Deus no caso; se elegê-lo senador para um mandato curto, ou se dele fazer uma escada para o suplente. É difícil saber. Pra mim é fácil, pois eu sou daqueles que crê que Deus não se presta ao papel de cabo eleitoral, mas tem gente que pensa diferente.  Jair Bolsonaro pensa. 

E, por falar nele, a situação pra ele também não anda nada boa. Se é justa ou injusta, isso depende do julgamento de quem goste ou não goste dele (uma situação que tem muito a ver com o modo como a Justiça funciona por aqui), mas a verdade é que o cara anda passando um perrengue danado. 

Na sua relação com Deus, Jair Bolsonaro tem afirmado que o grande e eterno arquiteto do Universo poupou-lhe a vida para que ele chegasse à presidência. No entanto, do jeito como as coisas andam pro lado dele, nas orações que, provavelmente, ainda faz, deve estar a incomodar o Criador como fez Castro Alves:  “Deus! Ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes? Embuçado nos céus?”  

É-me difícil acreditar que Deus depois de entregar ao ser humano a liberdade para decidir por si mesmo e por seus atos o destino da humanidade, fique todo o tempo por aí a consertar as bobagens que fazemos. Imagino que Ele, Deus, deixe esse assunto para resolver após a nossa morte ou para a hora do Juízo Final. Ele é soberano! Embora muitos creiam que não, Deus está acima dos magistrados.  

Por isso, tenho Castro Alves exclusivamente como poeta; um dos melhores do mundo e Jair Bolsonaro como um cidadão a quem os eleitores brasileiros deram a oportunidade de ouro para exercer em plenitude a Presidência da República para que ele pudesse evitar o risco de o país voltar a viver uma situação que seus eleitores imaginaram ter deixado no passado. Mas Jair Bolsonaro tantas fez e tantas deixou de fazer que levou o seu exército a ser quase completamente dizimado. 

Iniciei com o Rei Pyrrhus de Épiro e com ele encerro. O Rei venceu outras batalhas após quase ser derrotado em Ausculum. Faleceu numa delas, atingido por uma telha atirada por uma mulher. Que destino! Pyrrhus caiu, quebrou a coluna e, desse modo, permitiu que o inimigo o decapitasse. 

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POR QUE A LAVA JATO MORREU? SE MORREU. 

Para permanecer – para ter legitimidade – uma operação com as repercussões que teve a Lava Jato necessita de apoio popular. Quando Sérgio Moro aceitou ou buscou ser Ministro da Justiça e da Segurança Pública do Presidente Jair Bolsonaro, autorizou a desconfiança da população com relação ao julgamento e prisão do ex-presidente Lula. A legitimidade das decisões do Juiz começou a derreter. Mas um lado da sociedade, de uma sociedade dividida ao meio, ainda o apoiava, não pelas decisões dele na Lava Jato, mas pelo apoio dele ao Jair Bolsonaro. Quando ele rompe com Bolsonaro, o que restava de legitimidade dele e das decisões da Lava Jato derreteu de vez. 

Portanto, a questão deixou, há bastante tempo, o campo da consideração de legalidade. A legitimidade desconsiderou a legalidade das medidas, sejam elas quais forem. Portanto, Sérgio Moro enterrou a Lava Jato. Ah, mas Fernando Collor foi preso ao abrigo da Lava Jato e a Primeira-Dama do Peru aceita como foragida depois de condenada pela Lava Jato. Isso só reforça o que eu afirmo aqui. A Lava Jato, sem legitimidade, tornou-se, simplesmente, um instrumento de operação da política. 

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“QUEM DÁ MAIS? QUEM DÁ MAIS?”

Na eleição do ano passado, o povo brasileiro votou para escolher prefeitos e vereadores. Houve denúncias de compra de votos e como alguém comprou votos, houve quem os vendesse. A que preço?  Eu ouvi dizer que variou entre 50 e 200 reais e soube de eleitores que venderam o mesmo voto várias vezes. Certamente, nenhum candidato teve certeza de ter comprado e ter recebido (o voto é secreto), uma vez que tem gente nesse país capaz de dar a volta em malandros do melhor calibre. 

Agora, sobre o mesmo assunto, vejam que situação curiosa e trágica, para todos e cômica para quem tem bom-humor: os eleitores brasileiros pagaram aos partidos e, no fim da linha, aos candidatos, o valor total de 4,9 bilhões de reais, quantia transferida dos impostos para o Fundo Eleitoral aplicado em 2024. Pois bem. Façamos a conta. O Brasil tem 155 milhões de eleitores. Portanto, ao valor de 4,9 bilhões de reais, cada eleitor pagou R$31,61 pelo voto. Sendo assim, quem vendeu o voto recebeu o que pagou por ele. Quem o vendeu a um valor maior do que 31,61 obteve um bom lucro. Quem vendeu várias vezes, ganhou na loteria. Mas, peraí. Vender o voto não é crime? Sim. Pagar por ele também não é? Não será crime se o pagamento for via Fundo Eleitoral. 

Resta-nos uma certeza. A democracia é um fruto da cultura de um povo e não da política. 

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PSDB “SEPULTUS EST”

O PSDB ainda respira por ter pouca coisa na distribuição do fundo partidário e eleitoral e algum tempo de veiculação de anúncios na TV e rádio. Enquanto respira, o partido grita e implora por socorro na esperança de que a turma do MDB arremesse-lhe uma boia. 

O partido começou a se afogar quando Fernando Henrique Cardoso, na Presidência da República, lançou o colega José Serra ao mar para premiar Lula. Certamente, FHC acreditava que o governo do Lula estaria fadado ao desastre e isso garantiria o retorno dele. Lula sobreviveu e bem. As esperanças de Fernando Henrique caíram por terra. 

José Serra e Fernando Henrique empurraram Geraldo Alckmin para a disputa contra um presidente com o comando absoluto da máquina produtora de votos. Desse modo, José Serra preservou-se  para uma disputa sem Lula. Quebrou a cara, pois Lula disputou a eleição vestindo uma saia e com o nome de Dilma Rousseff. No caminho, Aécio foi fritado pelo Serra. Veio o impeachment e a Lava-Jato. O PT e o PSDB não aguentaram o tranco e surgiu Jair Bolsonaro posicionado à direita. O PT e o PSDB ficaram emparedados na esquerda. 

Contudo, o PT tinha Lula no banco de reservas, um craque na arte de hipnotizar eleitores. O PSDB só perna de pau. Então, a partir de 2018, Jair Bolsonaro assumiu o papel de rival do Lula e do PT, posição durante anos ocupada pelo PSDB, que, SEPULTUS EST.

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OEA. QUE DIABOS É ISSO? 

Foto: Gazeta do Povo

O site da Organização dos Estados Americanos – OEA – está dizendo: “Mais direitos para mais pessoas”. E também: A Organização dos Estados Americanos é o principal fórum regional para o diálogo, análises de políticas e sobre tomadas de decisões com relação aos assuntos do Hemisfério Ocidental. A OEA promove a liderança entre as Nações pelas Américas a fim de identificar os problemas e oportunidades do hemisfério. Juntas, estas lideranças constroem a cooperação entre os Estados e preparam uma agenda de assuntos do governo democrático, direitos humanos, segurança multidimensional e desenvolvimento sustentável.”

Pois é, há um representante da OEA no Brasil para nos ajudar a preservar a democracia. Uma boa iniciativa, que enche de esperanças a turma que entende que a democracia corre risco por aqui. Mas, é preciso ir devagar com as expectativas, pois cabe lembrar, que a Venezuela faz parte da Organização e lá a OEA está totalmente vencida na luta pela preservação da liberdade. 

Nós, por aqui, ainda não precisamos da OEA, a menos que ela esteja disposta a liderar uma campanha pela derrota, em 2026, dos senadores que, a despeito da competência institucional que a Constituição Brasileira lhes dá, não colocam ordem na Casa.

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VERSALHES, DISTRITO FEDERAL 

Será que a destruição da política chegaria a tanto no Brasil se Brasília não existisse? Se a capital permanecesse no Rio, o povo demoraria a reagir contra os abusos de poder, o tempo que tem demorado? Duvido. Brasília é uma cidade sem povo, onde residem os burocratas bafejados pelos ares de uma aristocracia sem alma. 

Brasília é a nossa Versalhes. Para fazer da corte uma ilha de conforto distante dos súditos, local de mordomias e orgias com o produto do trabalho de uma população miserável, faminta e desrespeitada, Luís XIV mudou a capital da França para um vilarejo distante 19 quilômetros de Paris, naquele tempo, século XVI, uma longa distância. Versalhes, o mais magnífico palácio de toda a Europa, abrigou por mais de 100 anos, uma monarquia sem pudor, cruel, opressora. 

Hoje, nas alucinações frequentes em razão das notícias, que chegam de Brasília, vejo Juscelino Kubitschek vestido de Luís XIV. Lula na pele de Robespierre, que com seus discursos inflamavam as multidões oprimidas – sujeito que deixou a cabeça na guilhotina onde decepou as cabeças dos adversários –  e Luís Capeto – Luís XVI – o rei inepto, mal-educado, sem graça, encarnado no corpo de alguém que conhecemos pelo nome de Fernando Haddad.  

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AUSÊNCIA PREMIADA

Michelle e Eduardo Bolsonaro levaram uma enorme vantagem com a ausência de Jair Bolsonaro na posse de Donald Trump. Se Jair fosse, Michelle seria, tão somente, a esposa de um líder político da América do Sul. Sem o marido, ela brilhou. Ponto para a intenção de Jair Bolsonaro de conseguir um mandato de senadora para ela em 2026. 

Por tanto, por tabela, o próprio Bolsonaro levou vantagem não estando na posse com o benefício adicional do não comparecimento do Lula, que, se fosse, levaria a esposa, a festeira Janja. 

Lula se doeu e resolveu criar um fato político que competisse, no Brasil, com a posse do Presidente dos Estados Unidos. Lula convocou uma reunião ministerial, provavelmente, acreditando que dela viriam notícias com forte repercussão. Elas não aconteceram, pois o governo nada tem para acrescentar à pauta da população. A situação ficou pior com a repercussão do desastre da comunicação do governo no caso do PIX. 

Lula, então, partiu para o anúncio da disposição para concorrer a um novo mandato. Isso também furou. Ninguém se importou com o que ele disse. Ao fim, a direita ganhou a parada. Dois dias após o fiasco, a Advocacia Geral da União organizou uma audiência pública sobre a regulação das redes e esperava criar fatos histriônicos com a presença das gigantes da teconolgia: “Apple, Google, Amazon, Microsoft e Meta”. As empresas desconhecem o fato, conscientes de que há, no mundo, um momento totalmente novo e promissor para elas, a partir dos Estados Unidos. 

A disputa pela imagem positiva continua, sempre entre os mesmos: Bolsonaro e Lula.

Foto: Reprodução Instagram @michellebolsonaro

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“NA CABEÇA DE PUTIN”. 

01.01.2024. 

Abri o novo ano encerrando a leitura do livro “Na cabeça de Putin”, escrito por Michel Eltchaninoff, doutor em filosofia e especialista na história do pensamento russo.  Eu li o livro com paciência e pesquisas e como se assistisse a uma série, capítulo após capítulo – são dez. Ao me dar o livro de presente, Denise Frossard abriu-me a oportunidade de tê-lo como a continuidade de outro livro, bom também, “Os sete chefes soviéticos”, este escrito por um general russo, Dmitri Volkogonov. Li “Os sete chefes” há bastante tempo. O general passeia pela vida e experiência de governo de Lênin, Stalin, Khrushchev, Brejnev, Andropov, Chernenko  e Gorbachev. Ele os define no prólogo: 

“Todos os sete chefes vieram das províncias. Nenhum deles emergiu de organizações do partido de Moscou ou de São Petersburgo. O provincialismo tende a ser conservador e ortodoxo. Nenhum deles era um proletário “puro” de origem, mesmo que todos reconhecessem e exaltassem o papel de ponta da classe operária. Mas, não foi a classe operária que governou, e sim uma “partidocracia” burocrática que rapidamente se formou. Os chefes sempre mantiveram grande distância dos trabalhadores, dos camponeses e da intelligentsia, exatamente por terem saído da profundeza do núcleo dos “partidocratas profissionais”. Afora o último deles,(Gorbachev) o nível intelectual, educacional e cultural dos chefes foi baixo. Mesmo Lênin, sem dúvida uma cabeça poderosa, em termos intelectuais foi estritamente unidimensional; cabeça puramente política, o que por certo muito o empobreceu como pessoa. Tinha pouco apreço pela cultura russa e por seus expoentes”. 

A leitura do livro presenteado pela Denise provocou-me o desejo de conhecer um pouco mais sobre Boris – ir além das notícias e dos fatos de fácil localização pelo Google –  uma vez que Putin chegou ao poder por ele e após a renúncia dele. Li, então, a biografia feita pelo putinista Vladimir Solovyov e pela jornalista Elena Klepikova. Vladimir é defensor da III Guerra Mundial, (evidentemente garantida a vitória da Rússia) é favorável à invasão plena da Ucrânia e à recuperação da União Soviética pela reconquista dos países, que se separaram. Boris, primeiro presidente eleito diretamente pelo povo russo, se deu mal e, antes de encerrar o segundo mandato, renunciou e entregou o poder a Putin, seu primeiro-ministro. 

Putin é mais letrado que seus colegas. É cínico. Conservador, religioso, leitor de Dostoiévski, de Kant e de Soljenitsin. Isso mesmo. Leitor e admirador do autor de O Arquipélago Gulag, que ao retornar do exílio foi recebido por Putin em casa. Relata Michel Eltchaninoff: “Apesar das reservas de Soljenítsin em relação a esse homem, um puro produto do regime soviético, da sua nomenklatura, da violência política do KGB, o escritor é partidário de um poder forte e de uma via específica para a Rússia. Não quer que a democracia russa se torne uma mera cópia do modelo ocidental. Preocupa-se com o “cerco” da Rússia pela NATO. Os dois homens discutem durante um bom par de horas. Soljenitsin prodigaliza-lhe os seus conselhos sobre como “reorganizar a nossa Rússia”. Putin diz-lhe que vai ter em conta os conselhos sobre a autogestão do poder local.”

Soljenítsin decepcionou-se. Continua Michel Eltchaninoff: “Dois anos depois, porém, Soljenítsin mostra-se amargo: “Dei-lhe bons conselhos, mas ele não seguiu nenhum”, lamenta ele numa entrevista concedida ao Moscow News no início de 2002(…). O que não impede Putin de elogiar e citar frequentemente o seu novo amigo. Concede-lhe um prêmio de Estado em junho de 2007, proclamando: “Milhões de pessoas por todo o mundo ligam o nome e a obra de Aleksandr Issaevich Soljenítsin ao destino da própria Rússia.”

Michel Eltchaninoff cita vários filósofos lidos por Putin e levanta a questão: “Será Putin um apaixonado pela filosofia?”. Ele mesmo responde: “Nem pensar! O presidente prefere a história, a literatura e acima de tudo o desporto. Não é um intelectual. Adora contar histórias sobre a sua juventude como trapaceiro e espião, mais do que evocar os seus estudos na Faculdade de Direito de São Petersburgo”. 

Mas, o que quer Putin, ao final das contas, segundo Eltchaninoff? Ele quer que a Rússia lidere uma União Euroasiática (Europa e Ásia). Volte a ter a dimensão que teve a União Soviética. “A Rússia é um país original, porque parte do seu território está na Ásia e uma parte significativa na Europa. Na base da cultura russa estão, antes de mais, os valores cristãos. Nesse aspecto, a Rússia é um país europeu. Mas vivem no país 15 milhões de muçulmanos, e grande parte do território situa-se na Ásia. Também temos, portanto, os nossos interesses na Ásia”, declara Putin. 

Putin quer um “mundo russo”, onde serão considerados cidadãos todos os indivíduos russos residentes fora do país, inclusive os descendentes dos russos. “A Rússia, claramente, deve cuidar dos russos que vivem noutros estados, mesmo que não tenham cidadania russa”, diz Putin. E diz mais, segundo Michel Eltchaninoff: “Putin enfatiza a importância de proteger o cidadão russo em todo o lado, no país e fora das fronteiras dele”. 

Em resumo: o livro é esclarecedor, pois mostra a face de Putin, um homem que tenta se utilizar da política para submeter o mundo todo à vontade dele. Michel Eltchaninoff encontrou espaço para citar as jovens componentes do Pussy Riot, um grupo de rock que tem contestado Putin. O resultado da contestação foi a prisão e perseguição. “A  21 de fevereiro de 2012, durante a campanha de Putin pela Presidência, o grupo apresentou-se na Catedral Cristo Salvador de Moscou: “Maria Mãe de Deus está conosco no protesto”. As componentes, encapuzadas, foram presas numa colônia penal da Mordóvia.