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Os dentes do dragão: a autodestruição da direita brasileira

Por: Jair de Vasconcelos Filho

A mitologia grega, muitas vezes tratada apenas como ornamento narrativo, é, na realidade, um repositório sofisticado de intuições sobre poder, conflito e ação humana. O episódio de Jasão e os dentes do dragão, no ciclo do Tosão de Ouro, ilustra com precisão essa dimensão. Diante de um exército que brota da terra, Jasão não recorre à força direta.

Ele lança uma pedra. Incapazes de reconhecer a verdadeira ameaça, os soldados voltam-se uns contra os outros e acabam se destruindo mutuamente.

Essa imagem mítica não descreve apenas um ardil heroico, mas antecipa um princípio recorrente da teoria política: movimentos desprovidos de discernimento estratégico tendem à autodestruição. A força, quando desacompanhada de inteligência política, converte-se em fragilidade.

Só assim se pode compreender a fragmentação contemporânea da direita brasileira, em especial do bolsonarismo.

Maquiavel, em O Príncipe, rompe definitivamente com a tradição moralizante do poder ao afirmar que a política não se rege por intenções proclamadas, mas pela capacidade de agir eficazmente em contextos adversos. A virtù não é virtude ética, mas competência estratégica, leitura do tempo histórico (tempo), adaptação às circunstâncias (occasione) e manejo do conflito.

O bolsonarismo nasce, porém, de uma recusa explícita dessa tradição. Ele se estrutura como negação da política enquanto técnica de mediação, substituindo-a por uma moralização permanente do espaço público. Negociação torna-se “traição”; compromisso vira “corrupção”; divergência interna converte-se em inimizade absoluta.

Esse deslocamento produz um efeito devastador: a impossibilidade de sustentar alianças estáveis. O movimento passa a operar segundo uma lógica binária — amigo/inimigo que só se mantém enquanto o inimigo externo permanece claramente identificável. Quando esse inimigo se reorganiza ou se torna difuso, a lógica se volta inevitavelmente para dentro.

A direita, então, passa a guerrear contra si mesma. O bolsonarismo institucionalizou a irreflexão como método. A política foi reduzida a performance, slogan, afeto bruto. O espaço do pensamento foi deliberadamente rejeitado como fraqueza ou elitismo. Movimentos que abandonam o pensamento não erram apenas; perdem a capacidade de corrigir o erro. A fragmentação atual não é um desvio, mas a consequência lógica de uma prática política que aboliu a reflexão estratégica.

Nesse cenário, conflitos internos não são metabolizados; são ampliados. Cada dissenso é tratado como ameaça existencial. Com isso, o campo político passa a se enfraquecer por sucessivas exclusões internas.

O bolsonarismo não passa de um movimento fundado no ressentimento, que vive da negação do outro. Ele não cria valores; reage. Sua identidade depende da existência constante de um inimigo.

Quando o adversário externo — real ou imaginário — deixa de cumprir essa função mobilizadora, o ressentimento não desaparece. Ele se redistribui internamente. Surgem novos culpados, novas acusações, novas purificações morais.

É nesse ponto que o bolsonarismo começa a devorar seus próprios quadros, líderes e bases. Não se trata de traições reais, mas de uma necessidade estrutural: o ressentimento precisa de alvos para sobreviver. (Nietzsche)

Enquanto isso, o campo progressista opera sem dificuldade: disciplina organizacional, pragmatismo institucional e gestão do tempo político. A esquerda não precisa ser brilhante; basta ser funcional. Diante de um adversário que se fragmenta, a vitória torna-se quase administrativa.

Aqui, a analogia mítica se completa. Jasão não vence por superioridade moral ou militar, mas por compreender a natureza do inimigo. Ele sabe que não precisa atacá-lo; basta provocar sua incapacidade de discernimento. Alcançar o Tosão de Ouro será mera consequência.