“Memórias em linha reta – Franco Montoro” é mais um livro que está nas minhas estantes e que eu compartilho a minha opinião sobre ele. No livro, o ex-governador de São Paulo conta a história de vida dele, num depoimento pessoal ao jornalista Pedro Cavalcanti. Montoro faleceu antes de contar toda a história e Pedro Cavalcanti continuou o trabalho.
É uma obra relevante, principalmente, pelo fato de os generais-presidentes terem cortado os canais de formação política no país e nós estarmos hoje a viver, por aqui, um deserto de alternativas. As lideranças atuantes após a volta da democracia já existiam, quase todas, antes do golpe de 64. André Franco Montoro foi uma delas.
Montoro ensina. Ele dá uma aula para os oradores, que apostam no sucesso dos discursos lidos: “Foi na Universidade de São Francisco que aprendi a falar em público, instrumento indispensável de todo político interessado em explicar e convencer. Entrei para a Academia de Letras da Faculdade e, assim que ganhei algum desembaraço, deixei de lado os textos escritos, trazendo no máximo algumas notas que me serviam de guia nas exposições mais longas. (…) Pois o orador que lê parece dirigir-se às folhas de papel e não ao público. Pior: concentrado na leitura perde as reações de seus ouvintes e não pode guiar-se por elas durante sua fala. Não é raro que um discurso preparado na serenidade dos gabinetes, perfeitamente lógico e bem estruturado, pareça frio e inadequado no momento de ser pronunciado. Assim, quando, depois de ler alguns parágrafos, o orador guarda as folhas no bolso e anuncia que vai continuar com um improviso, a plateia costuma sorrir acreditando que o texto foi decorado em casa e será recitado”.
E disse mais: “Desde o tempo de estudante, acostumei-me a só tomar a palavra quando tenho uma proposta a apresentar ou uma ideia a desenvolver e procuro sempre fazê-lo da maneira mais simples e direta, o que não exclui a veemência nem a emoção.”
Sobre campanhas eleitorais, disse Montoro: “Sempre acreditei que pessoas realmente convencidas pelas ideias de um candidato valem muito mais que cabos eleitorais pagos. Quem se convence de uma ideia pode atuar facilmente como elemento multiplicador. Assim, em todas as minhas campanhas, procurei comparecer pessoalmente ao maior número possível de reuniões, certo de que estaria me dirigindo não apenas aos presentes, mas também aos que eles próprios poderiam convencer”… E ainda temos: “Não há campanha em que o candidato não seja obrigado a improvisar no calor dos acontecimentos. Mas, com o passar do tempo, comecei a sentir necessidade de um mínimo de planejamento e organização…”
O depoimento mostra a política brasileira na essência. Montoro relata a participação dele na fundação do Partido Democrata Cristão, criado, em 1945, para atrair os melhores elementos da sociedade que pareciam desencantados com a política. O mesmo propósito motivou um grupo de brasileiros a criar, 66 anos depois, o Partido Novo.
Montoro cita a primeira derrota do partido no nascimento. Diz ele: “Embalados pelo otimismo natural de quem acredita nas próprias ideias, já nas eleições seguintes nosso grupo no PDC lançou dois candidatos a deputado federal e quatro a deputado estadual. A apuração demorava dias. À medida que as somas iam sendo anunciadas, diminuíam as esperanças. Um a um, nossos candidatos iam ficando para trás. Queirós Filho foi o último a resistir. Perdeu na recontagem do Tribunal Eleitoral e essa quase vitória deve ter sido mais difícil de suportar que uma derrota fragorosa. Foi ele, no entanto, o primeiro a se recuperar citando o poeta uruguaio Juan Zorrilla de San Martin: “É preciso que a semente seja esmagada para que a árvore cresça”. Ao ler a frase, me transportei para as agonias da democracia no Brasil, naquele tempo e hoje. O PDC cresceu; Montoro permaneceu nele até que os generais o extinguiram por estratégia de sobrevivência no poder sem voto.
No epílogo, Franco Montoro dedicou-se à ética. Destaco o trecho “Ética na Política”. Montoro fez referência à operação “Mãos Limpas…”que se celebrizou na Itália e estendeu-se às democracias de quase todas as nações do mundo, teve e tem o mesmo significado de retomada das exigências éticas. Depois da esperança generosa nos benefícios das democracias no pós-guerra, quase todas as nações tiveram uma experiência de decepção e revolta. As populações foram surpreendidas pela revelação de prática generalizada de fraudes, desvios de verbas públicas, corrupção de administradores, empresários e máfias de toda ordem, que transformaram a “coisa pública” em “coisa nossa”. Os escândalos provocaram uma reação generalizada da consciência pública, que passou a exigir ética na política. Essa exigência deu origem em todos os continentes a um amplo movimento de investigações, processos e condenações que atingiram inúmeros agentes públicos responsáveis, inclusive chefes de governo e altas autoridades do Poder Legislativo, Executivo e Judiciário.”
Franco Montoro não conheceu a Lava-Jato. Ele morreu bem antes e não viveu a experiência de euforia, decepção, revolta e derrota, que a operação possibilitou por aqui.
O livro é uma bela obra. Muito válida hoje como manual de bom procedimento na política e de estratégia de sobrevivência nela.


